Capítulo do livro "D.W.Winnicott - Um Retrato Biográfico", de Brett Kahr Exodus Editora, Rio de Janeiro, 1998.

Donald Woods Winnicott, o caçula de John Frederick Winnicott e Elizabeth Martha Woods Winnicott, veio ao mundo na noite de terça-feira, 7 de abril de 1896, nos últimos anos do reinado da Rainha Vitória. Quando Winnicott nasceu, Robert Salisbury, o Terceiro Marquês de Salisbury (1830-1903) acabava de iniciar seu terceiro mandato como Primeiro Ministro conservador da Grã-Bretanha, tendo voltado a assumir o cargo em junho de 1895. Os ingleses desfrutavam de um raro período de paz, visto que seu país ainda não havia mergulhado na Guerra dos Boers, que viria a ceifar tantas vidas. Era uma época de relativo descanso e confiança, em que a maioria das pessoas não trancava as portas de suas casas. As senhoras usavam espartilhos, os cavalheiros fumavam charutos após a ceia e a maioria dos cidadãos britânicos que possuíam terras e dinheiro sentiam orgulho da expansão e do status internacional crescentes do Império.

Os pais do novo e saudável membro dos Winnicott nomearam seu filho "Donald" - nome profético derivado da antiga palavra celta que significa "poderoso, vigoroso". A família Winnicott vivia em Plymouth, Devon, uma tranqüila cidade costeira distante da correria e do alvoroço londrino, tendo vivido na região oeste do país por várias gerações. É muito provável que o sobrenome da família derive de "Winn", palavra saxônica que possivelmente significa "amigo", e de "Cott", "casa". Em Devon existe até uma pequena cidade chamada "Winnicott".

O avô paterno de Donald Winnicott, Richard R. Winnicott, que se auto-denominava "serralheiro, encanador e gasista de equipamentos e em geral" (citado em Robinson, 1991, p. 59), havia fundado a firma "Irmãos Winnicott, Mercadores e Exportadores" (Winnicott Brothers, Merchants and Shippers), na George Street, em Plymouth, em 1846, cerca de cinqüenta anos antes do nascimento de Donald.

O pai de Winnicott, Frederick, nascido em Plymouth em 8 de setembro de 1855, filho mais novo de Richard R. Winnicott, havia se tornado um homem alto e delgado, com talento e energia consideráveis. Cursara a Escola da George Street em Plymouth e, após deixar a escola, associou-se ao seu irmão, Richard Weeks Winnicott. Os irmãos Winnicott instalaram-se, no início, nos escritórios de tijolos vermelhos e calcário da Frankfort Street, uma construção imponente desenhada pelo arquiteto Henry Snell, também de Plymouth, com mais de 30 metros de extensão (Robinson, 1991); mais tarde expandiram a firma para outros locais, incluindo filiais em George Lane e em Frankfort Lane e, em 1941, também na Ebrington Street. Frederick Winnicott tinha uma tremenda habilidade para os negócios e, sem dúvida, recebeu várias instruções sábias de seu pai, Richard Winnicott. Frederick se tornaria mais tarde diretor administrativo da "Irmãos Winnicott". Os dois filhos - Frederick e seu irmão mais velho, Richard Weeks Winnicott - expandiram os negócios de seu pai, especializando-se em vendas por atacado de uma enorme variedade de produtos, incluindo cutelaria de mesa, produtos de zinco e ferro, banheiras galvanizadas, objetos banhados em prata e baús de viagem em estilo japonês. Tinham também nas lojas um Departamento de Moda, que oferecia uma "infinita variedade de artigos de moda japoneses e outros, de grande utilidade, para o público em geral" (citado em Robinson, 1991, p. 59). Eles fabricavam espartilhos para mulheres (Phillips, 1988); produziam doces e confeitos variados (Fuller, 1987) entre os quais estavam os Winnicott Sweets, de boa fama local; tornaram-se também fornecedores de roupas para a Marinha Real, visto que sua loja era de grande conveniência para a enorme quantidade de marinheiros que embarcava em Plymouth. Segundo um neto de Richard Winnicott, o Sr. Peter Woolland (comunicação pessoal, 22 de setembro de 1994), os dois irmãos se davam "extremamente bem", indo freqüentemente jogar bilhar juntos após um longo dia de trabalho. Além do trabalho na empresa da família, Frederick Winnicott dedicava muito de sua energia a atividades religiosas e a outros assuntos e, mais tarde, também a atividades políticas locais. Com pouco mais de vinte anos, Frederick deu aulas na Escola Dominical da Igreja Metodista da King Street e, em 1876, tornou-se secretário honorário das aulas de instrução bíblica. Em 1879 e 1880 ajudou a construir a Igreja Metodista de Mutley Plain, coletando fundos entre os vizinhos e contribuindo com verba própria. Foi ainda administrador de sua igreja pelo resto da vida, além de deter o posto de tesoureiro e de cantar no coral. Trabalhou também como administrador e tesoureiro em faculdades de teologia locais e tornou-se membro do Sínodo Metodista.

Mais tarde, Frederick voltou a sua atenção para metas mais cívicas. Foi secretário honorário do Instituto de Mecânica e, de 1899 a 1900, logo após o nascimento de seu filho Donald, tornou-se presidente da Associação Mercantil de Plymouth. Foi, além disso, presidente da Câmara do Comércio de Plymouth em 1908, membro do conselho de diretores do Banco de Plymouth e South Devon; e juiz de paz. Formalmente, sua carreira política parece haver começado ao ser eleito membro do Conselho da Cidade de Plymouth; a partir de então, ascendeu para a posição de vereador e, mais tarde, tornou-se prefeito de Plymouth, exercendo dois mandatos, um de 1906 a 1907, administrando a cidade de Plymouth, e outro de 1921 a 1922, como prefeito da Grande Plymouth.

Não foi sem motivo que, em honra aos diversos serviços que prestou ao bem-estar público, Frederick Winnicott tenha sido agraciado Cavaleiro, em 1924, pelas mãos do Rei George V, no Salão de Gala do Palácio de Buckingham. Recebeu uma condecoração política, para o qual foi indicado pelo escritório do Primeiro Ministro, na Downing Street nº 10. Frederick Winnicott entrou para a ordem dos Knights Bachelors, que, apesar de não ser uma das ordens reais, era um título antigo e valioso, criado no século XVII pelo Rei James I (David Pogson, comunicação pessoal, 28 de setembro de 1994). Em sua recente vida de Cavaleiro, Sir Frederick teria empregado uma boa parte do tempo preparando a construção de vários prédios em Plymouth, entre os quais estão a Biblioteca Pública de Plymouth (hoje conhecida como Biblioteca Central de Plymouth) e o crematório (Kenneth Fenn, comunicação pessoal, 18 de setembro de 1994). A Cidade de Plymouth concedeu-lhe o status de cidadão em 1934.

Frederick Winnicott aspirava tornar-se membro do Parlamento, mas havia tido problemas de aprendizado quando jovem, faltando-lhe, portanto, tanto a educação quanto a confiança para aventurar-se fora da esfera política local. Entretanto, conheceu Nancy, Viscondessa Astor e, quando seu marido tornou-se Lorde Astor, Winnicott sugeriu à Lady Astor que se candidatasse ao Parlamento. Ela seguiu seu conselho e teve sucesso, tornando-se a primeira mulher a ser membro do Parlamento da Grã-Bretanha, representando a Divisão Sutton que incluía Plymouth. Frederick Winnicott ajudou-a até mesmo a alcançar um posto na Câmara dos Comuns (entrevista com Clare Winnicott: Neve, 1983). Anos mais tarde, Donald Winnicott descreveria seu pai como "extremamente preocupado, durante meus primeiros anos, com a cidade e com os negócios" (citado em Clare Winnicott, 1978, p. 23). O irmão de Frederick, Richard Winnicott, também participou de numerosas atividades municipais, sendo, por exemplo, presidente da companhia de água de Plymouth. Devido a essa grande quantidade de iniciativas, o neto de Richard Winnicott referiu-se aos irmãos Winnicott como possuindo "um grande espírito público" (Peter Woolland, comunicação pessoal, 22 de setembro de 1994).

A família Winnicott vivia numa casa espaçosa conhecida como Rockville, situada na Seymour Road, no bairro de Mannamead, em Plymouth. Rockville era composta por uma casa grande, jardins espaçosos em não menos de quatro níveis, um campo de croquet, um pomar, uma fonte e uma horta, e era rodeada por árvores altas e vistosas (Clare Winnicott, 1978). Rockville ainda existe, e é uma residência particular bela e impressionante, com vários dormitórios. A esposa de Frederick, Elizabeth, tinha muito orgulho de sua casa e mantinha um livro de visitas, como faziam muitas senhoras nessa época.

Elizabeth Winnicott, filha de um químico e farmacêutico de Plymouth, o Sr. William Woods, supervisionava a casa e cuidava de Donald e de suas duas filhas mais velhas, Violet, nascida em 1889, e Kathleen, em 1891. Além da família nuclear, viviam na casa uma tia, Delia (entrevista com Clare Winnicott: Neve, 1983), uma babá, Allie, que cuidava de Donald, e uma governanta para Violet e Kathleen (Clare Winnicott, 1978), além de uma cozinheira e várias copeiras (Johns, 1991). Por vezes, alguma outra tia ia viver com eles (entrevista com Clare Winnicott: Neve, 1983). Os Winnicott tinham ainda um gato de estimação. Durante toda a sua vida, Donald Winnicott manteve um afeto todo especial pela babá (Clancier & Kalmanovitch, 1984).

Winnicott pai dedicava tanto tempo à cidade que parece ter passado muito poucas horas em casa, deixando seu filho rodeado por esse verdadeiro exército de mulheres: mãe, irmãs, tias, babá, governanta, cozinheira, copeiras e as diversas parentes que viviam do outro lado da rua, na casa do tio de Donald, Richard. Todos os domingos, o jovem Donald Winnicott tinha o prazer de voltar para casa da Igreja Não-Conformista caminhando ao lado de seu pai, o que levava cerca de dez minutos (entrevista com Clare Winnicott: Neve, 1983). Exceto por esses breves interlúdios com o pai, Donald passava praticamente todo o tempo junto das mulheres, em geral gozando bastante de suas atenções e desenvolvendo um conhecimento incomum a respeito de suas vidas e preocupações particulares. Sentia-se tão confortável entre as mulheres que passava horas a fio na cozinha, o aposento mais tradicionalmente feminino da casa. Aparentemente, Elizabeth Winnicott costumava reclamar que o jovem Donald desperdiçava muito tempo com a cozinheira (Clare Winnicott, 1978). Donald deve ter gostado bastante de ser mimado pelas mulheres que o rodearam durante sua infância. Ele referia-se a elas, em conjunto, como suas "múltiplas mães" (citado em Clare Winnicott, 1978, p. 23). Em particular, as empregadas exerceram um papel vital no desenvolvimento de Donald Winnicott. Anos mais tarde, ele recomendaria a alguns de seus pacientes que passassem mais tempo "no andar de baixo", com a equipe doméstica, como parte do tratamento. Presumivelmente, ele sabia que os empregados muitas vezes têm mais tempo e sensibilidade para com crianças que os pais biológicos (Jilian Wilson, comunicação pessoal, 25 de fevereiro de 1993). O Dr. Charles Rycroft, antigo membro da Sociedade Britânica de Psicanálise, que conhecia Winnicott bem, notou que, ainda que a família Winnicott tivesse bastante dinheiro, ela certamente não podia ser classificada como pertencendo à "alta sociedade" possuidora de terras, não tendo empregados homens como mordomos, lacaios ou cocheiros, como seria próprio de uma família de mais posses (comunicação pessoal, 29 de novembro de 1993). Podemos imaginar o que teria acontecido se Winnicott tivesse tido mais acesso a figuras masculinas - se sua presença não teria, talvez, impedido o que se revelaria uma imersão fora do comum na vida de mães e filhos.

Essa rara constelação de um menino totalmente envolvido por mães e virtualmente privado de um pai parece ter marcado de forma indelével o desenvolvimento psicológico de Winnicott, nele gerando uma forte identificação feminina. Em primeiro lugar, devido ao fato de que o jovem Donald recebeu tamanho afeto por parte de tantas mulheres com as quais interagia de forma confiável, ele se sentiu protegido e seguro, e essa estabilidade emocional propiciou-lhe uma fundação sólida para uma vida adulta firme, produtiva e criativa. Em segundo lugar, a preponderância das mulheres na infância de Winnicott estimulou nele um grande fascínio pelo mundo interno feminino - interesse que acabou se tornando o trabalho ao qual dedicaria a sua vida; como profissional, passou mais de quarenta anos explorando e pesquisando a essência da maternidade e a relação entre a criança e a mãe. Até mesmo o pai de Winnicott ganhou a vida, em parte, como fabricante de espartilhos, vendendo roupas íntimas para um sem número de mulheres (cf. Cooper, 1989). De fato, de um modo ou de outro o jovem Donald Winnicott estava sempre se confrontando com a natureza feminina.

Apesar de que Winnicott tenha desenvolvido um senso de masculinidade relativamente firme, alimentado por vários anos em instituições tipicamente masculinas tais como a escola pública, a universidade e a Marinha Real, ele sempre falou com uma voz aguda e levemente estridente. Aparentemente, detestava o som de sua própria voz - o legado de uma infância repleta de um número excessivo de mulheres (Barbara Dockar-Drysdale, comunicação pessoal, 1º de outubro de 1994). Em seu livro Clinical Notes on Disorders of Childhood, Winnicott (1931a, p. 119) ressalta que "Às vezes, um menino na puberdade não consegue utilizar o novo poder de sua fala masculina, falando em falsete ou imitando, inconscientemente, a voz de uma menina ou mulher que conhece". De fato, quando começou a fazer programas de rádio, nos anos 40, vários ouvintes pensavam que se tratava de uma mulher, e a BBC recebeu cartas dirigidas à "Sra. Winnicott" (Martin James, comunicação pessoal, 24 de novembro de 1991; cf. Casement, 1991). Também, durante vários anos, sempre que ligava para Harry Karnac, primeiro proprietário da H. Karnac (Books), Winnicott dizia "alô" com uma voz tão aguda que Karnac (comunicação pessoal, 3 de agosto de 1994) respondia, sério: "Pois não, Senhora?"

A teoria psicanalítica clássica concentrou-se sempre na posição da criança com relação a ambos os pais. O drama de Édipo da teoria freudiana requer três participantes: mãe, pai e filho. Winnicott, no entanto, escreveu muito pouco sobre a figura paterna; a maior parte de seu trabalho é centrada apenas na mãe e no bebê. Conhecendo suas experiências infantis, essa relativa omissão da figura do pai não nos deveria surpreender. Sem dúvida, a ênfase que ele dedicou à figura materna - sua contribuição vital para a pesquisa psicananlítica - também derivou dos fortes laços entre Winnicott e as mulheres que o cuidavam. É interessante notar que mesmo estudantes de psicologia de nossos dias muitas vezes ficam sinceramente surpresos quando descobrem que D. W. Winnicott é de fato um homem - ele escreve sobre mães e bebês com tamanha intimidade que as pessoas imaginam que ele pessoalmente amamentou várias crianças.

De modo geral, Winnicott parece ter tido uma infância bastante sólida e previsível. Ele não sofreu qualquer tipo de angústia ou perda física, não teve irmãos mais novos que lhe tirassem o lugar e foi criado com enorme estabilidade e consistência. No perfil de Winnicott publicado pouco após seu 65º aniversário, um jornalista escreveu: "Teve uma infância feliz, e ele se vê como particularmente afortunado, pois o lar de sua infância ainda permanece como era quando ele tinha 18 meses de idade, de forma que sempre ele pôde voltar e relembrar os sentimentos de sua história passada" (Anônimo, 1961, p. 138). O jovem Donald brincava exaustivamente com suas irmãs e primas e vivia feliz com o fato de ter suas necessidades regularmente antecipadas. Muitos anos mais tarde, ele recorda: "Lembro-me de que, quando tinha quatro anos, acordei na manhã de Natal e descobri que havia ganhado um carrinho de mão suíço, desses que as pessoas de lá utilizam para levar lenha para casa. Como é que meus pais sabiam que era exatamente isso o que eu queria?" (Winnicott, 1962c, p. 70). Além do mais, sua relação tão próxima com a babá Allie durou mais de quinze anos. Winnicott (1957j) manteve-se realmente interessado pelo bem-estar da babá até a sua morte, e deve ter recebido um grande apoio desse relacionamento.

O jovem Winnicott teve um objeto transicional - uma posse especial da infância: uma boneca chamada "Lily", que havia pertencido a Kathleen, a mais nova de suas irmãs. Violet e Kathleen tinham outra boneca, "Rosie", e ao três anos de idade Donald quebrou seu nariz com um malho de croquet, possivelmente num ataque simbólico a uma de suas irmãs. Frederick Winnicott, usando palitos de fósforos, aqueceu o nariz de cera da boneca e conseguiu remoldar seu rosto. Esse episódio parece ter impressionado Donald profundamente, por representar uma experiência de agressão sem que houvesse, necessariamente, destruição - idéia que lhe daria forças durante a sua prática psicanalítica. De fato, Winnicott (1970c) viria a crer, mais tarde, que a possibilidade de expressar hostilidade sem aniquilar o objeto de nossa fúria é de importância vital. Basicamente, Frederick Winnicott demonstrou a seu filho, de forma involuntária, que o comportamento violento pode ser controlado e superado, e que até mesmo os destroços de ataques hostis podem ser consertados. Talvez não seja surpreendente, portanto, que mais tarde Winnicott se interessasse pelo trabalho com pacientes violentos e delinqüentes (por exemplo, Winnicott, 1943a, 1956c, 1963f).

Muitos anos mais tarde, Clare Winnicott (1978, p. 25), a segunda esposa de Winnicott, comentaria que a infância de seu marido "parece ter sido boa demais para ser verdade. Mas a verdade é que ela foi boa, e ainda que tente não posso mostrá-la sob qualquer outra luz". Winnicott (1957c, p. 143) expressou um "reconhecimento totalmente lúcido e emocionado" por sua mãe e sua generosidade. Sem dúvida, Elizabeth Winnicott representava uma estabilidade palpável para seus filhos. Certa vez, quando a caixa d'água da casa dos Winnicott rompeu-se, causando uma terrível enchente, a família tratou o acontecimento como uma aventura e não como uma catástrofe, como a maioria das outras famílias teria feito (Clare Winnicott, 1978). Este episódio certamente ilustra a flexibilidade e a estabilidade da vida familiar dos Winnicott.

Além da solidez que Winnicott adquiriu de seus protetores confiáveis e constantes, ele teve a permissão de manter-se livre e inabalável com relação aos dogmas. Certo dia, ao voltar da igreja com seu pai, Donald fez algumas perguntas a respeito de religião. Frederick Winnicott respondeu: "Escute, meu filho. Você lê a Bíblia - o que estiver lá. E decide sozinho o que quer. Você é livre, não tem que acreditar no que eu penso. Tome sua própria posição a respeito disso. Apenas leia a Bíblia" (entrevista com Clare Winnicott: Neve, 1983). Tampouco deve nos surpreender que, nas décadas seguintes, Winnicott se tornasse o líder da tradição independente dentro da psicanálise britânica, desprendido da rigidez de posições teóricas mais ortodoxas (cf. Rayner, 1991).

Donald Winnicott pode ter desfrutado de segurança e paz consideráveis durante os anos de sua formação, mas algo o perturbava, acabando por levá-lo a dedicar-se ao estudo de doenças mentais graves. Sendo o único filho homem da família, ele deveria ter se envolvido com os negócios de seu pai, mas ao invés disso desafiou as convenções e tornou-se médico e, depois, psicanalista. A presença de suas "múltiplas mães" pode, de fato, explicar de forma bastante satisfatória porque ele escreveu tanto sobre a psicologia do laço entre a mãe e a criança, mas a presença de tantas figuras maternas não nos dá praticamente qualquer luz sobre porque ele teria escolhido tornar-se psicanalista. Dado o grande conforto que Winnicott sentia em meio às mulheres, ele poderia ter se tornado costureiro ou ginecologista. Winnicott nunca discutiu, nos seus textos publicados, seus motivos profundos para buscar a formação analítica; entretanto, aos 67 anos, escreveu um comovente poema sobre sua mãe, Elizabeth, que nos dá um bom indício a respeito da fonte de seu interesse profundo pelo tratamento dos problemas emocionais. Winnicott enviou o poema ao seu cunhado, James Britton, com a seguinte nota: "Você se importaria de dar uma olhada nesta minha ferida?" O poema, "A Árvore", é composto pelos seguintes versos cheios de ternura:

Mamãe lá embaixo chora chora chora.
Assim a conheci.
Um dia, deitado em seu colo como agora nesta árvore morta
Aprendi a fazê-la sorrir a estancar suas lágrimas a desfazer sua culpa a curar sua íntima morte.
Alegrá-la era a minha vida.

[Citado em Phillips, 1988, p. 29]

O poema insinua que Elizabeth Winnicott teria sofrido de depressão (cf. Winnicott, 1948c) e que, como menino, Donald teria assumido a função de animá-la. Colega de Winnicott, a Dra. Margaret I. Little confirmou, mais tarde (entrevista em 1º de novembro de 1981, in Anderson, 1982a), que Elizabeth Winnicott de fato passava por períodos de depressão. Winnicott teria subentendido, ainda, que seu pai, sempre ocupado, delegara-lhe inconscientemente a tarefa de cuidar da mãe desamparada. Na sua autobiografia não publicada, ele constata que Frederick Winnicott "deixou-me demais com todas as minhas mães. As coisas nunca se consertaram totalmente" (citado em Clare Winnicott, 1978, p. 24). Assim, tudo indica que Winnicott viu a presença de suas múltiplas mães não somente como uma grande vantagem, mas também como uma responsabilidade psicológica.

A psicoterapeuta Alice Miller (1979) escreveu um ensaio muito esclarecedor a respeito das experiências infantis de vários psicanalistas, postulando que muitos desses clínicos buscaram a profissão após fazer uma "formação analítica" durante a infância, como psicoterapeutas mirins, ouvindo os sofrimentos e lamentos de seus pais deprimidos e confortando-os em períodos de angústia. Quem mais, exceto os filhos de mães ou pais infelizes, desejaria dedicar sua carreira ao estudo dos problemas emocionais? Quando criança, Winnicott foi forte o bastante para resistir aos períodos de depressão de sua mãe, além de receber a base suficiente para ser alegre e criativo. Mas a experiência de preocupar-se com as necessidades de uma mãe triste pode ter estimulado no jovem Donald algum tipo de fantasia de resgate, levando-o finalmente a dedicar a vida ao cuidado de outras pessoas deprimidas. Alguns anos mais tarde, ele escreveria que "A análise é o trabalho que escolhi, é onde sinto que lido melhor com a minha própria culpa, onde posso me expressar de forma construtiva" (Winnicott, 1949b, p. 70). No ensaio "Reparation in Respect to Mother's Organized Defence Against Depression", Donald Winnicott (1948c, p. 93) indica que muitas vezes os filhos entram em harmonia com o estado mental da mãe: "Sua função primeira é lidar com o humor da mãe". Sem dúvida, Winnicott estava se baseando numa experiência pessoal profunda, e pode ter se sentido terrivelmente culpado por, mais tarde, não conseguir curar sua mãe ou salvá-la de uma morte precoce (por congestão pulmonar catarral e infiltração cardíaca adiposa) em 1925.

Devemos ser cuidadosos ao tentar entender a influência das experiências infantis de Donald Winnicott em sua vida e obra; parece ser bastante provável, no entanto, que a conscientização de Winnicott com relação às mulheres, em especial aquelas com tendências depressivas, tenha instigado seu interesse pelos tormentos sofridos pelas mães e facilitado consideravelmente sua compreensão a esse respeito. A incrível sensibilidade de Winnicott com relação a mães e bebês tornar-se-á cada vez mais notável nas páginas seguintes.

Donald teve uma infância rica, cheia de diversão e companheirismo. Ele não somente escreveu poemas e participou de teatro amador, como ainda destacou-se cantando e tocando piano, além de envolver-se com empenho em diversas atividades esportivas, de forma especial a natação e a corrida (Clare Winnicott, 1978). De fato, Winnicott corria tão bem que tinha a intenção de entrar para a equipe olímpica britânica e representar seu país nos Jogos Olímpicos. Infelizmente, um problema nos quadris impediu-o de participar (Khan, 1988). Se houvesse conquistado uma vaga na equipe britânica, Winnicott teria começado o árduo treinamento para os Sextos Jogos Olímpicos, marcados para 1916 em Berlim. Não é necessário dizer que o espetáculo nunca se realizou, devido à eclosão da Primeira Guerra Mundial. Na época dos Sétimos Jogos Olímpicos, realizados em Antuérpia em 1920, ele já havia iniciado a carreira médica (cf. Weyand, 1952).

Winnicott gostava muito de nadar nas águas da Plymouth Sound, próxima de sua casa; anos mais tarde, ele dizia ainda recordar a bela imagem da luz do sol refletida nas ondas (Dockar-Drysdale, comunicação pessoal, 13 de julho de 1991). Ele também se divertia muito com pequenos animais, e quando criança criava ratos, nos quais costumava observar a interação entre a mãe e os filhotes (Winnicott, 1969e). Numa ocasião, construiu um campo de concentração para bichos-de-conta, prendendo-os dentro dele. Depois, durante vários anos, continuou sentindo pontadas de culpa (Dockar-Drysdale, comunicação pessoal, 13 de julho de 1991).

Winnicott cursou uma escola preparatória em Plymouth, perto de sua casa. Saiu-se extraordinariamente bem em todas as matérias, exceto por um breve período, durante a sétima série, em que fez uma confusão com os cadernos e recebeu notas baixas nas provas (Khan, 1975). Não temos qualquer detalhe específico sobre essa fase; mas é tentador especular que sua mãe poderia ter passado por mais um período de depressão, afetando o humor de Donald e, conseqüentemente, seu desempenho na escola.

Como um todo, o jovem Donald Winnicott teve uma infância muito boa. Seus pais certamente lhe forneceram amor e proteção suficientes para impedi-lo de sofrer qualquer grande problema mental ao longo de sua vida. Entretanto, a longa sombra das depressões de Elizabeth Winnicott e a incomum constelação psicossexual formada por suas múltiplas mães estimularam em Winnicott o desenvolvimento de fantasias de resgate de mulheres atormentadas. Em 1923, ele reconstruiria o cenário de sua infância, casando-se com uma mulher muito doente, que lhe trouxe vários anos de angústia e tormento. Apesar dessas tribulações, a família de Winnicott propiciou-lhe a base necessária para que ele buscasse uma vida plena e criativa, abençoada pelo gênio e por grandes realizações.