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Capítulo do livro "D.W.Winnicott - Um Retrato Biográfico", de Brett Kahr Exodus Editora, Rio de Janeiro, 1998. Em 1934, Winnicott formou-se como psicanalista de adultos e membro associado da Sociedade Britânica de Psicanálise; e em 1935 recebeu seu certificado de psicanalista infantil. Nina Searl e Ella Freeman Sharpe, duas pioneiras, supervisionaram o tratamento de seus pacientes adultos durante sua longa formação analítica, e Melanie Klein, Melitta Schmideberg (filha da Sra. Klein) e Nina Searl supervisionaram seu trabalho com crianças (King, 1991a). Seu primeiro paciente de análise infantil foi bastante trabalhoso - um menino delinqüente que mordeu as nádegas de Winnicott em várias ocasiões (Winnicott, 1956c). Em 1936, tornou-se membro pleno da Sociedade, apresentando como trabalho de titulação o ensaio "The Manic Defence" (A Defesa Maníaca) no dia 4 de dezembro de 1935 (Winnicott, 1935); e, em 1940, após uma longa formação, foi apontado analista didata do Instituto de Psicanálise - ou seja, ele agora poderia tratar pessoalmente outros analistas ainda em formação. Melanie Klein consagrou-o analista didata kleiniano, aprovado por ela, durante um certo tempo - ele foi uma das cinco únicas pessoas com esse título no período inicial da psicanálise britânica (King, 1991a). Winnicott deve ter desfrutado de uma reputação bastante sólida como psicanalista em meados dos anos 30, pois não somente Melanie Klein confiou-lhe o tratamento de seu filho Erich como ainda Ernest Jones (1937) enviou-lhe sua filha Nesta May para análise infantil, com o objetivo de ajudá-la a elaborar o seu ciúme patológico em relação a seu irmão Mervyn. Antes disso, apenas Melanie Klein havia tido a honra e o privilégio de tratar membros da família do Dr. Jones, que há bastante tempo era presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise. A fotografia de Winnicott feita no estúdio de Edith Tudor-Hart nesse período (reimpressa em Clancier & Kalmanovitch, 1984) mostra um homem de ideais, porte e intensidade, e seu retrato, feito por Basil também nessa época, nos fornece o vislumbre de um homem dotado de uma benevolente força interior. Winnicott deve ter se sentido um tanto orgulhoso por haver completado a exaustiva formação analítica tanto adulta como infantil, e por haver recebido tamanha aprovação de ninguém menos que Ernest Jones. Nos anos seguintes, Jones lhe enviaria outros pacientes (cf. Kubie, 1957). Tudo indica que Jones continuou sendo um admirador consistente do trabalho de Winnicott, e após este lhe ter mandado dois de seus livros recentemente publicados sobre os cuidados com bebês e crianças (Winnicott, 1957a, 1957b), o velho estadista da psicanálise britânica respondeu: "Muito obrigado pelos dois livros - que estou muito feliz por possuir, visto que aprecio demais os seus textos e idéias. Espero que eles sejam lidos em breve pelos dois membros de minha família em idade fértil, Nesta e a esposa de Lewis" (Jones, 1957). Desta forma, Jones comunicou a Winnicott que o tratamento da jovem Nesta May, duas décadas antes, começara a dar frutos, e que Nesta estava se preparando para ter os seus próprios filhos. Ernest Jones, uma figura bastante aristocrática, talvez tenha vindo a representar uma figura paterna para Winnicott, visto que ele se assemelhava a Frederick Winnicott em vários aspectos; portanto, a aprovação de Jones deve ter sido importante para Winnicott e, pouco antes da morte de Jones, Winnicott (1957l) escreveu à sua mulher, Katherine, afirmando que "o Dr. Jones e toda a sua família significaram muito para mim". Winnicott já havia publicado, então, um livro de pediatria inovador e importante, Clinical Notes on Disorders of Childhood, que foi lançado em 1931 como parte da "Practitioner's Aid Series", criada para clínicos gerais muito ocupados. Esse volume, um marco, ajudou a explicar as raízes psicológicas de certas doenças infantis. O livro foi vendido a 10 xelins e 6 pence e tornou-se, desde então, um clássico na história da pediatria, assim como da psicanálise. No Prefácio de seu livro, Winnicott inclusive reconheceu seu débito para com Sigmund Freud, que lhe proporcionou a "capacidade crescente de valorizar a investigação dos fatores emocionais" (Winnicott, 1931, p. v). O autor também expressou sua admiração por seu antigo chefe no Hospital St. Bartholomew, o Professor Francis R. Fraser, e por colegas mais recentes, como o Dr. Reginald Miller, a Dra. Elizabeth O'Flynn, o Dr. Herbert Perkins e seu colega do Hospital Infantil Paddington Green, o Dr. E. C. Coker. O Prefácio do livro começa com uma apologia por parte de Winnicott (1931a, p. v): "Este livro procede do coração de um clínico, e não do cérebro de um estudioso de biblioteca; daí alguns de seus méritos e deméritos". Esta afirmação nos oferece um sumário preciso a respeito do tipo de textos escritos por ele nos quarenta anos seguintes - um conjunto de obras baseadas amplamente na prática clínica pediátrica e psicanalítica. Ele nunca fez muitas referências em seus textos; ao invés disso, concentrou-se quase exclusivamente nos registros detalhados dos casos, e essa atenção precisa com relação às minúcias de sua interação com os pacientes acabaria se tornando não apenas uma de suas marcas registradas, como também um de seus muitos legados para a comunidade psicanalítica. Clinical Notes on Disorders of Childhood parece ter sido o primeiro volume publicado na "Practitioner's Aid Series", o que nos parece bastante apropriado, pois o livro de Winnicott mostrou-se incrivelmente útil para a literatura médica, permanecendo de grande valor até os dias de hoje, com as suas inúmeras descrições de casos e descobertas valiosas sobre a natureza da prática pediátrica. O livro contém capítulos sobre a elaboração do histórico clínico, o exame físico e a leitura correta dos gráficos de temperatura, com seções sobre problemas de nariz e garganta, doenças cardíacas, febre reumática, dores do crescimento, artrite, coréia, doenças do sistema nervoso, doenças mentais, convulsões, enurese, distúrbios da fala e problemas mais basicamente psicológicos como ansiedade, sexualidade e masturbação. Apesar de ser, em princípio, um guia para pediatras, Winnicott não pôde conter-se e deixar de incluir uma série de referências breves às obras de Sigmund Freud, Melanie Klein e Ernest Jones, assim como comentários sobre o trabalho de Susan Isaacs (1930) - uma brilhante psicóloga infantil que mais tarde empreenderia a formação analítica. Ele também cita o ensaio, recentemente publicado, de seu analista, James Strachey (1930), sobre "Some Unconscious Factors in Reading". Winnicott inseriu no livro vários de seus recentemente adquiridos insights psicanalíticos como notas de rodapé, sem dúvida num esforço de comunicar seu entusiasmo quanto à abordagem freudiana mas protegendo-se, ao mesmo tempo, dos protestos de seus colegas pediatras mais organicistas, que teriam rejeitado um livro com excessivas referências às controversas teorias psicanalíticas. Em seu capítulo esclarecedor sobre "Arthritis Associated with Emotional Disturbance", ele escreve: "O processo de cura natural oferece bons resultados, sendo melhor que qualquer tratamento (a menos que a psicanálise esteja disponível para tornar o processo natural mais completo e satisfatório)" (Winnicott, 1931a, p. 84, rp. 1). E no capítulo "Convulsions, Fits", ele relata o caso de um menino de apenas seis meses e meio de idade que desenvolveu uma convulsão psicogênica após morder o seio da mãe. Outra vez, Winnicott inclui seu relato como uma nota de rodapé e não no corpo do texto, como se pensar num sintoma aparentemente físico resultante de uma interação entre a mãe e o bebê amamentado pudesse ser radical demais para os doutores da época. Entretanto, Winnicott foi corajoso o suficiente para fazer referência ao trabalho de Freud sobre o escritor russo Fyodor Dostoievsky, no qual ele especula sobre uma ligação causal entre estados emocionais fortes e reações epiléticas subseqüentes. Em Clinical Notes on Disorders of Childhood, Winnicott dedicou ainda um capítulo inteiro aos importantes "retardos mentais" - conjunto de condições mais conhecidas hoje como "dficiências mentais" ou "dificuldades de aprendizagem". Em 1992, Valerie Sinason, consultora de psicoterapia infantil da Clínica Tavistock, em Londres, publicou um livro que é um marco, Mental Handicap and the Human Condition: New Approaches from the Tavistock (Sinason, 1992) - sem sombra de dúvida o melhor trabalho sobre o conhecimento e o tratamento psicanalítico de várias formas de deficiências mentais. A obra de Sinason traça, de forma criativa e original, os efeitos de traumas de infância no desenvolvimento de estados deficientes numa etapa posterior da vida. De fato, Winnicott antecipou uma série das contribuições de Sinason sobre as ligações entre traumas e retardos, apesar de, obviamente, não desenvolvê-las na maneira sofisticada empregada por esta autora. Mas ele teve a coragem de enunciar que "o desenvolvimento mental é mais comumente retardado pela ansiedade latente ou manifesta. Sempre que a situação de ansiedade era trazida à consciência pela psicanálise, o resultado foi uma notável melhoria na capacidade de brincar e estudar com prazer" (Winnicott, 1931a, p. 155). Essa afirmação também antecipa as descobertas das pesquisas de Sinason (comunicação pessoal, 10 de dezembro de 1995), as quais revelaram que, após o tratamento orientado psicanaliticamente, alguns pacientes deficientes se recuperaram de tal forma que chegaram a mostrar uma pontuação mais alta em testes de quociente intelectual. Indubitavelmente, a expressão da ansiedade e a capacidade de falar sobre traumas durante o tratamento amplia o espaço mental do paciente deficiente e, como resultado, a chamada "estupidez do retardo mental" torna-se muito menos pronunciada. Finalmente, em seu livro, Winnicott escreveu sobre a questão crucial da hostilidade em relação às crianças. Numa nota de rodapé chocante e de grande sabedoria clínica, ele comenta que "Essa atitude ambivalente é bem ilustrada quando uma mãe de gêmeos demonstra grande carinho por um dos bebês e sente um ódio perigoso contra o outro. A manifestação comum do ódio inconsciente é o carinho excessivo, percebido pela criança como amor mais ódio" (1931, pp. 125-126, rp. 1). Em anos posteriores, Winnicott nos lembraria de que o ódio a bebês recém-nascidos gera problemas psicológicos grotescos nos pacientes, e que esse tipo de hostilidade constitui também o protótipo do mau tratamento profissional ao paciente - fenômeno que Winnicott (1949b) descreveria de forma tão eficaz no ensaio "Hate in the Counter-Transference" ("O Ódio na Contra-transferência"). Após a publicação de Clinical Notes on Disorders of Childhood, Winnicott obteve uma crítica muito favorável no International Journal of Psycho-Analysis, o melhor periódico freudiano, feita pela psicanalista britânica Sybille L. Yates (1932). Sem dúvida, a psicologicamente sofisticada Dra. Yates captou todo o valor da obra de Winnicott, resumindo o livro desta forma:
Yates também comentou sobre a observação de Winnicott a respeito da relação entre estados convulsivos e problemas na amamentação nos primeiros estágios da infância, percepção que continua sendo tanto revolucionária como fundamental. Em 1935, apenas alguns anos após a publicação de seu primeiro livro, Winnicott completou finalmente a longa e árdua formação em pediatria, psiquiatria infantil e psicanálise. Ele poderia, então, empregar as idéias fundamentais de Freud e Klein para criar suas próprias contribuições originais. De fato, conforme Winnicott foi crescendo profissionalmente, sua admiração por Klein tornou-se menos efusiva e, como já comentamos, ele começou a concentrar-se mais em sua própria abordagem da psicologia infantil. Sabemos, como já foi visto anteriormente, que tanto Klein como Winnicott estudavam os aspectos pré-edípicos da personalidade infantil, mas enquanto que a primeira preferia estudar o mundo da fantasia interna da criança, Winnicott interessava-se mais pelo relacionamento real entre a criança e a mãe. Além disso, Klein tendia a descrever as crianças de forma a ressaltar fenômenos como inveja, agressividade, voracidade e experiências psicóticas, enquanto que Winnicott enfatizava sua saúde, suas necessidades e seu desejo de serem amadas. Não nos surpreende que Joan Riviere tenha tido raiva de Winnicott por suas criativas diferenças (cf. Cooper, 1991). Até mesmo a Sra. Klein, que já tinha estado agradecida a Winnicott por tratar seu filho Erich, chegou a insultá-lo nos últimos anos de vida, chamando-o de "aquele homem detestável" (Barbara Dockar-Drysdale, comunicação pessoal, 13 de julho de 1991). Charles Rycroft (1994, p. 2), um bom observador dos debates entre a Sra. Klein e o Dr. Winnicott, lembra que seu relacionamento podia ser caracterizado como "um exercício de não-compreensão mútua" - acusação um tanto lamentável, aliás, dadas as extraordinárias capacidades dessas duas importantes figuras. O ressentimento dos kleiniano em relação a Winnicott e sua crescente independência atingiu proporções tão grandes que, no fim dos anos 60, alguns professores do curso de psicoterapia infantil da Clínica Tavistock (o proverbial "lar" dos kleinianos) proibiram expressamente que seus estudantes comparecessem a palestras públicas de Winnicott, apesar de Melanie Klein já ter morrido alguns anos antes. A Sra. Frances Tustin (comunicação pessoal, 22 de fevereiro de 1994), renomada psicoterapeuta infantil, que estudou na Clínica Tavistock com a analista kleiniana Esther Bick, confessou que "Em minha formação, fui ensinada a não ler Winnicott". Outra dessas estudantes, agora profissional experiente, ri ao lembrar que visitava Winnicott em segredo, como se ele fosse o epítome de algum terrível movimento subversivo. Devemos ressaltar, entretanto, que apesar dos comentários maldosos contra Winnicott, ele recebeu diversos convites para orientar os estudantes de psicoterapia infantil da Clínica Tavistock (Bick, 1958b; cf. Bowlby, 1958), e manteve uma correspondência cordial com Esther Bick (por exemplo, Winnicott, 1953e). Winnicott também parece ter enviado vários pacientes para os estudantes da Clínica Tavistock (Bick, 1958a). Ao contrário de seus colegas kleinanos, Winnicott nunca foi intolerante e, já mais velho, referia-se freqüentemente a Klein com grande respeito (Winnicott, 1962e), apesar de, dois anos antes da morte de Melanie Klein, ele ter se permitido um comentário mais cândido, feito na relativa segurança da distante Sociedade Psicanalítica de Los Angeles, na Califórnia. Nessa ocasião, numa conversa com um grupo de candidatos à formação psicanalítica, Winnicott (1962e, p. 177) disse que "Klein afirma ter prestado total atenção a esse fator ambiental, mas na minha opinião ela é, devido ao seu temperamento, incapaz de fazê-lo" (cf. Winnicott, 1969h). Diversos escritores e professores influenciaram muito o desenvolvimento de Winnicott, como já vimos, mas talvez sua maior fonte de inspiração e conhecimento durante seus anos mais maduros tenha derivado de seu próprio trabalho com os pacientes. Ele escreveu que muitas de suas idéias clínicas surgiram "simplesmente seguindo a orientação que me foi fornecida por um cuidadoso histórico clínico em inúmeros casos" (Winnicott, 1936, p. 34, rp. 2). Talvez a maior expressão da gratidão de Winnicott para com as pessoas que ele tratou esteja na dedicatória de seu livro publicado postumamente, Playing and Reality, que diz, simplesmente: "A meus pacientes, que me pagaram para me ensinar" (Winnicott, 1971a). Sabemos muito pouco sobre a vida doméstica de Winnicott durante os anos 30 e 40. Em 1932, Alice e ele mudaram-se de Surbiton, em Surrey, para a Sydney House, na Pilgrim's Lane nº 7, em Hampstead, Londres - uma casa extremamente confortável localizada num ponto tranqüilo entre a Hampstead High Street e a colina de Hampstead. As belas árvores e o terreno inclinado da colina próxima certamente lembravam a Winnicott a zona rural de Devon, e essa característica pode tê-lo influenciado na compra da Sydney House. Pilgrim's Lane abrigou várias personalidades interessantes ao longo dos tempos, entre as quais inclui-se William Johnson Cory, professor assistente da Faculdade de Eton de 1845 a 1872 e autor da letra da canção "Eton Boating". Apesar de não ter mais que se locomover de Surrey para Londres, Winnicott não poderia ter passado muito tempo em casa. Os numerosos registros de casos preservados indicam que ele dedicava uma enorme parcela de tempo aos seus pacientes do hospital e do consultório na Queen Anne Street. Talvez a frágil Alice Winnicott tenha começado a exigir demais emocionalmente, e ele tenha preferido o trabalho à vida doméstica. Tudo indica que ele teria aproveitado todas as oportunidades de trabalho que surgissem, e Alice pode ter sofrido bastante, além do mais, devido à impotência e ao relativo descaso de seu marido. Winnicott passava um bom tempo na companhia de seu velho amigo da Escola Leys, H. S. Ede, conhecido entre seus amigos por "Jim", que vivia próximo de Winnicott, na Elm Row nº 1, em Hampstead. Sendo historiador da arte e colecionador, Ede conhecia virtualmente todas as pessoas da moda no mundo das artes e do entretenimento, e até mesmo a olhadela mais rápida em seu livro de visitas da década de 30 revela que ele recebia algumas das personalidades mais glamurosas e interessantes, como os atores John Gielgud e Ralph Richardson, os escritores John Betjeman e Graham Greene, artistas como Vanessa Bell, Georges Braque, Duncan Grant, Henry Monroe e Ben Nicholson, coreógrafos e dançarinos como Frederick Ashton, George Balanchine, Alexandra Danilova, Serge Lifar, Bronislava Nijinska e Lydia Sokolova, a pianista Vera Moore, a locomotiva Ottoline Morrell, o compositor Constant Lambert, críticos e hisoriadores da arte como Kenneth Clark, James Pope Hennessy, Lincoln Kirstein, Herbert Read, Adrian Strokes e vários outros. Donald Winnicott e sua esposa tiveram muitas vezes a oportunidade de encontrar-se com essas pessoas brilhantes e talentosas. Por exemplo, no dia 7 de fevereiro de 1932, os Winnicott compareceram a uma reunião na casa de Ede, e nessa ocasião o livro de visitas inclui a célebre pianista Vera Moore, que também tinha a honra de ser amante do famoso artista Constantin Brancusi; George Eumoropoulos, colecionador de arte chinesa; Helen Sutherland, também colecionadora de arte; e Dugald S. MacColl, que foi curador da National Gallery, em Millbank, e da Coleção Wallace. Esses encontros na casa de Ede, em que frequentemente servia-se chá, devem ter significado para Winnicott um descanso um tanto necessário do seu trabalho em pediatria e psicanálise, que era bastante exigente. Donald Winnicott também visitou Ede e sua família em ocasiões mais calmas e privadas, e tanto ele como Alice tornaram-se extremamente apegados a Elisabeth e Mary Ede, as encantadoras filhas de Jim Ede. Como Ede viajava bastante, as duas meninas muitas vezes ficavam com os Winnicott em Pilgrim's Lane, e certa vez Winnicott chegou a oferecer-se para adotá-las - como era de se esperar, Ede recusou a oferta (Elisabeth Swan, comunicação pessoal, 30 de outubro de 1994). O próprio Jim Ede passou boa parte de seu tempo com David Michael Jones (1895-1974), um poeta e pintor de Kent. Jones havia sofrido uma série de surtos, e Ede achou que Winnicott poderia ajudá-lo; assim, decidiu apresentar os dois homens. Em 24 de janeiro de 1932, Jones tomou chá com os Winnicott na casa de Ede, mas o relacionamento entre Winnicott e Jones parece ter se intensificado apenas na década de 40, após Ede deixar a Inglaterra para ir viver no exterior. No dia 10 de março de 1943, Jones (1943a) mandou um cartão postal a Ede, comentando: "Como os W são agradáveis". Algumas semanas mais tarde, em 27 de março de 1943, Jones (1943b) escreveu a Ede: "Gostei dos Winnicote [sic] e certamente irei vê-los". Ele ressaltou ainda que "Gostei da conversa da Sra. Winnicote [sic]", relatando que eles chegaram a discutir assuntos peculiares tais como estalactites e erosão, tópicos pelos quais Alice se interessava. Até o mês de maio, a relação entre Jones e os Winnicott foi se tornando cada vez mais próxima, e Jones mandou uma carta a Ede na qual narra, com bastante ânimo:
Já em 1944, Jones (1944) relatou a Ede: "Não vejo os Winnicot [sic] há muitos meses. Tenho que vê-los. Você sabe - estive doente a maior parte do tempo". Essa passagem refere-se evidentemente a um dos vários períodos de surto que Jones passava numa casa de repouso supervisionado em Harrow, sob os cuidados de um certo Dr. Stevenson. Parece que Donald Winnicott nunca tratou formalmente de David Jones, mas as cartas entre Jones e Ede revelam quanto tempo livre Winnicott dedicava ao amigo doente de Ede. A tendência de Winnicott de trabalhar demais já estava começando a manifestar-se, e o vício iria se intensificar com o passar dos anos e conforme Winnicott ia se tornando mais célebre e mais procurado como psicanalista. Não podemos relatar em detalhes a vida de Winnicott nessa época sem fazermos referência às famosas dissenções teóricas que envolveram as facções opostas da Sociedade Britânica de Psicanálise. Para que possamos compreender melhor o relacionamento frustrantemente imprevisível de Winnicott com Klein e Riviere, devemos lembrar-nos de que várias das amargas disputas entre esses analistas ocorreram tendo como pano-de-fundo as discussões e brigas muito mais perniciosas e divisivas conhecidas pelo cauteloso título de "As Controvérsias" (King & Steiner, 1991). Entre 1941 e 1945, a Sociedade Britânica de Psicanálise promoveu uma série de reuniões científicas com o objetivo de discutir os pontos-de-vista divergentes das duas escolas rivais, a de Anna Freud e a de Melanie Klein. Os dois grupos envolveram-se num turbilhão de encontros tumultuados, lutando intensamente para resolver questões explosivas como a natureza da psique infantil, a época do complexo de Édipo e a formação do superego, para não mencionar as práticas clínicas e técnicas desenvolvidas a partir das diferentes posições teóricas. Em particular, vários participantes atracaram-se com as observações de Klein sobre a vida fantástica do bebê, ostensivamente ilustrada por ansiedades paranóides e persecutórias. Os kleinianos aceitavam essa noção como axiomática, enquanto os seguidores de Anna Freud a viam com desconfiança. As tensões intensificaram-se tanto que membros dos dois grupos freqüentemente conferiam diagnósticos psiquiátricos a membros do grupo rival. Eva Rosenfeld (citado em Rayner, 1991, p. 18), uma refugiada de Viena, referiu-se a esse período como "os anos do pesadelo". O Dr. John Bowlby (comunicação pessoal, 30 de outubro de 1986), participante um tanto perplexo, lembra de uma noite fatal quando, após uma reunião, ele teve a honra dúbia de conduzir tanto a Srta. Freud quanto a Sra. Klein para suas respectivas casas na zona norte de Londres. Parece que Anna Freud e Melanie Klein sentaram-se ambas no banco de trás do carro de Bowlby, deixando o banco do acompanhante livre. Nenhuma das duas ousaria sentar-se na frente, deixando a rival no banco de trás - isto pareceria abertamente hierárquico. Ao invés disso, as duas optaram por uma digna igualdade de assento, permitindo ao Dr. Bowlby exercer o papel de motorista. Segundo Bowlby, ninguém proferiu uma única palavra no caminho, o que criou uma situação bastante embaraçosa para o próprio Bowlby. As origens das "As Controvérsias" provêm não apenas das diferenças teóricas entre as facções kleiniana e freudiana, mas talvez, de forma ainda mais fundamental, de animosidades pessoais e outras motivações privadas. Como já indicamos, Melanie Klein foi a rainha da psicanálise britânica de 1926 até 1938 sem nenhum concorrente, mas sua posição foi ameaçada com a chegada de Anna Freud de Viena. Ambas haviam imigrado à Inglaterra provenientes de países de língua alemã, e lutavam pelo título de principal psicanalista infantil. Anna Freud tinha o título de princesa por ser filha de Sigmund Freud, mas Melanie Klein havia se estabelecido na comunidade londrina doze anos antes, tendo criado um bando de seguidores forte e leal (cf. King, 1988). E assim como a Inglaterra entrou na guerra internacional, também os membros da Sociedade Britânica de Psicanálise desenharam suas linhas de batalha. Sabemos que os membros nativos da Sociedade ficaram consideravelmente ressentidos, pois seu grupo profissional, antes essencialmente gentio, tranformou-se rapidamente numa organização dominada por judeus alemães refugiados da perseguição nazista. Apesar de passar temporadas em Berlim e Viena, anglo-saxões nativos como Edward Glover, Sylvia Payne, Ella Freeman Sharpe e outros devem ter achado a mudança substancial na demografia de sua instituição psicanalítica um tanto desconcertante. Para seu grande crédito, os membros locais esforçaram-se heroicamente por acolher os novos membros judeus em vários aspectos, fornecendo-lhes vistos de entrada, acomodações e pacientes. Mesmo assim, os analistas ingleses realmente ficaram um tanto ressentidos e chocados - uma reação bastante compreensível face à enorme transformação ocorrida na composição da família psicanalítica. James Strachey (1940, p. 18) enviou uma carta bastante reveladora a Edward Glover, escrita durante um acesso de febre, na qual ele lamenta: "Por que esses malditos fascistas e (estrangeiros desgraçados) comunistas invadem nossa ilha pacífica e moderada?" Imediatamente após rabiscar estas palavras, Strachey deve ter sentido uma pontada de remorso ou culpa, pois instantaneamente tentou remediar a sua calúnia, comentando: "Mas vejo que estou mais febril do que pensava". Somente num estado febril o cordial James Strachey ousaria mostrar o outro lado de sua atitude ostensivamente amigável para com os recém-chegados. Winnicott teve um papel secundário nas "Controvérsias", em parte porque ele havia se formado há pouco tempo, e não possuía a autoridade de muitos dos integrantes mais ativos da série de debates. O Dr. Charles Rycroft (comunicação pessoal, 29 de novembro de 1993) insinuou, astutamente, que a situação de Winnicott como um menino prensado entre duas irmãs solteironas - Melanie Klein e Anna Freud - repetiu exatamente sua constelação familiar como o irmão caçula de Violet e Kathleen. E assim como o jovial Donald havia escapado de sua casa em Plymouth para dar início a uma vida mais independente e individualizada em Cambridge e, mais tarde, em Londres, da mesma forma o Dr. Winnicott, mais maduro, em última análise conseguiu se desvencilhar dos puxões sectários da Srta. Freud e da Sra. Klein. Com a Segunda Guerra Mundial chegando ao fim, Winnicott e os colegas que pensavam como ele aproximaram-se de um modo um tanto informal para constituir um assim chamado "Grupo do Meio" (Middle Group) - hoje conhecido como o Grupo Independente -, que contou com figuras importantes como Michael Balint, John Bowlby, Masud Khan, Pearl King, John Klauber, Margaret Little, Marion Milner, Charles Rycroft e vários outros. O Grupo do Meio constituiu um espaço intermediário entre kleinianos e freudianos e, apesar de ter sempre recusado tornar-se formalmente o seu líder, Winnicott ficou sendo o mais importante e produtivo incentivador dessa nova linhagem de analistas de mente aberta dentro da Sociedade Britânica de Psicanálise. Mas Winnicott tinha preocupações mais importantes do que a política psicanalítica local. Logo após a Grã-Bretanha ter entrado na Segunda Grande Guerra, ele aceitou o cargo de psiquiatra consultor do Plano de Evacuação do Governo (Government Evacuation Scheme), em Oxfordshire, trabalhando em particular para o Plano de Abrigos para Evacuação de Oxfordshire (Oxfordshire Evacuation Hostel Scheme). Esse posto se mostraria crucial para Winnicott, tanto pessoal como profissionalmente. Ele não somente ampliou seu conhecimento a respeito de pacientes extremamente difíceis, como ainda conheceu uma assistente social bonita e talentosa, Clare Britton, com quem passou a ter um caso extra-conjugal (Lomax-Simpson, 1990; Irmi Elkan, comunicação pessoal, 6 de outubro de 1994). Nessa época, Winnicott responsabilizou-se pela saúde mental de aproximadamente 285 crianças de cinco abrigos (Winnicott, 1948a). Esses meninos e meninas haviam sido transferidos de suas casas e separados dos pais, com a intenção de serem protegidos dos bombardeios em Londres e outras grandes cidades. Winnicott visitava as crianças e trabalhava com a equipe do abrigo semanalmente (Clare Winnicott, 1984). Ele manteve esse cargo de 1939 até 1946. Como um dado de interesse histórico, a notável psicanalista Eva Rosenfeld, amiga íntima de Anna Freud, trabalhou com Clare Britton em Oxfordshire por algum tempo, porém parece improvável que ela tenha tido algum contato mais extenso com Winnicott nesse período (Dyer, 1977). O trabalho de Winnicott em Oxfordshire também lhe deu a chance de aprender muito sobre a importância não apenas do tratamento intensivo como também do tratamento residencial e da administração residencial. Em pouco tempo, ele percebeu que alguns pacientes haviam sofrido tantos danos, que uma mera sessão psicanalítica de cinquenta minutos não seria suficiente, e compreendeu que alguns indivíduos requerem assistência psicoterapêutica em tempo integral. Winnicott assumiu, ainda, outros trabalhos ligados à guerra mas, diferentemente de alguns de seus colegas da Sociedade Britânica, como o major John Bowlby, ele não se alistou nas forças armadas. Juntamente com Melanie Klein e John Rickman, Winnicott serviria como membro do grupo que assessorava a Pesquisa de Avaliação da Evacuação de Cambridge (Cambridge Evacuation Survey), supervisionado pela educadora pioneira Susan Isaacs (Isaacs, Brown & Thouless, 1941; cf. King, 1991b). Trabalhou, além disso, com Edward Glover numa pesquisa nacional para o Ministério da Saúde a respeito da saúde mental dos civis entre os anos de 1939 e 1943, conhecida como a "Pesquisa da Neurose" (King, 1991b). Ele ainda ajudaria seu colega jungiano, Michael Fordham (comunicação pessoal, 13 de fevereiro de 1994) no trabalho de evacuação de Nottingham, conseguindo, além de tudo isso, arranjar tempo (Winnicott, 1941c) para participar do Grupo de Discussões sobre a Criança, organizado pela Srta. Theodora Alcock (1948), psicóloga que trabalhou com 1.140 crianças evacuadas de Londres entre 1939 e 1945. Alcock (1963), conhecida carinhosamente pelos colegas como "Theo", também ajudou a popularizar o uso do Teste de Rorschach na Inglaterra; em seu papel de orientadora de psicólogos estagiários da Clínica Tavistock, ela analisaria protocolos de Rorschach de criminosos de guerra nazistas como instrumento de ensino (Mary Boston, comunicação pessoal, 28 de setembro de 1994). Tendo em vista a profunda imersão de Winnicott no trabalho ligado à guerra, imaginamos se ele teve algum tempo para visitar seu pai e suas irmãs, que passaram todos esses anos em Plymouth, escondendo-se das bombas alemãs. Tragicamente, os repetidos ataques aéreos inimigos em 1941 e 1942 destruiram grande parte do centro de Plymouth, a querida cidade de Winnicott, e ele deve ter se sentido realmente abalado ao ver o o estrago pela primeira vez. A devastação causada pela Blitz incluiu o incêndio das instalações da "Irmãos Winnicott" na Frankfort Street. Sir Frederick, já idoso mas ainda vivo, mudou temporariamente o negócio para o Bedford Terrace. Winnicott sabia que o processo de evacuação era muito traumático para os jovens londrinos e, em colaboração com John Bowlby e Emanuel Miller (eminente psiquiatra infantil e pai do famoso diretor teatral, radialista e médico, o Dr. Jonathan Miller), escreveu uma importante carta ao British Medical Journal alertando que, se as autoridades continuassem investindo nos projetos de evacuação, essas crianças muito provavelmente acabariam desenvolvendo uma pletora de sintomas degenerativos como ansiedade, distúrbios de conduta, doenças físicas e até mesmo delinqüência crônica (Bowlby, Miller & Winnicott, 1939). Conforme Winnicott foi se tornando mais experiente no trabalho com as crianças evacuadas, começou a descobrir a terrível validade de suas previsões clínicas, deparando-se com sintomas problemáticos como enurese, irritações epidérmicas, tiques nervosos e uma série de outras manifestações graves (Winnicott, 1945e; Winnicott & Britton, 1947). Algumas das crianças evacuadas para os abrigos supervisionados por Winnicott, grande parte das quais havia passado por perdas emocionais consideráveis antes mesmo do início da guerra, demonstravam uma delinqüência extrema, assim como outros sintomas tipicamente psicóticos. O trabalho com esse tipo de paciente, portanto, representou um novo ponto de partida clínico para Winnicott, que antes tivera pouco contato com a delinqüência infantil (Clare Winnicott, 1984). A sintomatologia das crianças incluía, entre outros, enurese noturna, incontinência fecal, roubos em grupo, incêndio de montes de feno, fuga da escola, fuga do abrigo, vandalismo nos trens e amizades com soldados locais (Winnicott & Britton, 1947). Um menino de nove anos de idade, de Londres, era tão incontrolável, que quase não podia ser contido no abrigo, e mesmo o tolerante Winnicott descreveu-o como um "louco de olhar faiscante" (Winnicott, 1949b, p. 72) - expressão estranha à sua maneira habitual de falar de um paciente. Winnicott tentou ajudá-lo convidando-o para ficar em sua casa por um período de três meses, na esperança de que ele e sua mulher, Alice, pudessem servir de pais substitutos. Winnicott (1949b, p. 72) lembra desse período como os "três meses de inferno". Cuidar do menino "foi mesmo um trabalho em tempo integral para nós dois, e quando eu estava fora ocorriam os piores episódios" (Winnicott, 1949b, p. 72). No início, isto significou que Alice, uma mulher atormentada por si mesma, tinha que fornecer grande parte dos cuidados requeridos por esse menino agressivo enquanto Winnicott atendia as outras crianças nos abrigos e supervisionava e ensinava as equipes (cf. Clare Winnicott, 1984). Alice não apenas não tinha qualquer experiência com enfermagem ou psicoterapia como ainda, conforme já indicamos, sofria de problemas psiquiátricos; portanto, a imposição desse menino deve ter exacerbado a tensão doméstica dos Winnicott de forma considerável. Vários colegas de Winnicott informaram-me de que esse garoto não foi o único paciente a viver na residência de Donald e Alice em Hampstead (por exemplo, Barbara Dockar-Drysdale, comunicação pessoal, 13 de julho de 1991; Michael Fordham, comunicação pessoal, 13 de fevereiro de 1994); portanto, a quantidade de doenças psicológicas em sua casa deve ter gerado problemas pantagruélicos. Michael Fordham descreveu a atmosfera em Pilgrim's Lane como insuportavelmente "caótica". Nesse período, Winnicott trabalhava com diversas pessoas diagnosticadas como "esquizofrênicas", e suas reminiscências da época da Segunda Guerra Mundial nos revelam muito sobre o quanto seus deveres como psicoterapeuta lhe tomaram tempo e energia: "Eu raramente tomava conhecimento dos bombardeios, estando o tempo todo mergulhado na análise de pacientes que ignoravam, notória e enlouquecedoramente, bombas, terremotos e inundações" (Winnicott, 1945b, p. 137). Não poderíamos, então, conjecturar que, dada a absorção quase total de Winnicott pelo trabalho psicanalítico, Alice teria se sentido abandonada pelo marido e derrotada por sua "marcação" extra-oficial? O próprio Winnicott já começara a sonhar com sua mulher na figura de um urso castrador (Strachey, 1925), portanto as experiências da guerra apenas aumentaram ainda mais as tensões de um casamento já problemático. Naturalmente, tentamos imaginar por que Winnicott permitiu que pacientes psicóticos vivessem em sua casa - uma forma totalmente incomum de manejo ou tratamento por quaisquer padrões, mas de modo especial para um psicanalista freudiano clássico. Talvez Winnicott tenha esperado que esses pacientes fornecessem a Alice algum tipo de companhia; por outro lado, eu suspeito que em parte Winnicott possa ter convidado pacientes altamente difíceis para ficar em sua casa como uma forma inconsciente de enfurecer e sobrecarregar sua mulher, num esforço desesperado de propiciar o fim de seu relacionamento conjugal, que já estava desmoronando. Não é de surpreender que o casamento tenha chegado ao fim, a pedido de Donald, e que os Winnicott tenham se separado em 1949, o ano de suas bodas de prata. A Dra. Katharine Rees (comunicação pessoal, 23 de setembro de 1991, in Goldman, 1993), ex- assistente social psiquiátrica do Departamento de Psicologia do Hospital Infantil Paddington Green, que conhecia Winnicott relativamente bem, insinuou que Donald teria ficado com Alice até que ela tivesse forças para continuar sem ele. Sem dúvida, o tratamento psicanalítico com o Dr. Clifford Scott teria ajudado a fortalecê-la. Após o fim do casamento, Winnicott continuou a comunicar-se com Alice intermitentemente. Um pequeno número de cartas enviadas por Alice a seu ex-marido após o fim do casamento sobreviveu, e elas podem ser descritas apenas como extremamente pungentes. Após o fim do casamento, Alice mudou-se para Meadow Cottage, em Loddon Drive West, na cidade de Wargrave, Berkshire. Parece que ela empregava o tempo em atividades solitárias - a lista de membros de sua turma de pré-graduação na Universidade de Cambridge menciona sua ocupação como "Ceramista e artista" (Newnham College Roll: Letter, January, 1950, p. 183) - porém não sabemos o quanto ela se dedicou a essas ocupações após deixar Londres. No dia 9 de novembro de 1958, ela escreveu a seu amado ex-marido sobre seu trabalho no Instituto de Mulheres local e seu interesse por jardinagem, pintura e escrita. Ela também agradeceu a carta que Donald lhe enviara por ocasião de seu aniversário e contou-lhe que suas ex-cunhadas, Violet e Kathleen, lhe mandaram de presente um cachecol (Alice Winnicott, 1958a). Donald freqüentemente lhe enviava livros, chegando a mandar-lhe de presente uma cópia de seu recentemente publicado Collected Papers: Through Paediatrics to Psycho-Analysis (Textos Selecionados: Da Pediatria à Psicanálise) (Winnicott, 1958a; cf. Alice Winnicott, 1958b). Nesse volume está a versão revista do ensaio de Winnicott sobre "Hate in the Countertransference" ("O Ódio na Contra-transferência")(Winnicott, 1958b), que oferece uma descrição dolorosa de alguns momentos da última etapa do casamento, dedicados ao tratamento residencial de um menino psicótico. Winnicott certamente deu suporte financeiro à sua ex-esposa, e tinha os recursos necessários para fazê-lo. No dia 19 de novembro de 1958, Alice escreveu: "No que diz respeito às finanças estou muito bem graças a você + acho que estou podendo economizar um pouco a cada ano. Tenho um pouco depositado no banco + eles me pagam juros (5%, acho), então é um bom investimento" (Alice Winnicott, 1958b). Com o passar dos anos, as cartas foram se tornando cada vez mais queixosas, e Alice começou a se lamentar de que Donald não se comunicava com mais freqüência, apesar de que suas irmãs parecem ter mantido contato com ela. Sua carta de 12 de novembro de 1959 (Alice Winnicott, 1959a) contém o seguinte comentário tristonho: "Obrigada por escrever no meu aniversário. Eu estava completamente sozinha, como estou agora. V. e K escreveram. Gostaria de poder vê-las algumas vezes". Após Winnicott mandar a Alice um livro chamado Arabian Sands, ela responde: "Ele me ajudará a passar o tempo durante as longas noites de inverno" (Alice Winnicott, 1959b). Parece improvável que Winnicott tenha visitado Alice pessoalmente, considerando-se seu envolvimento no segundo casamento e sua crescente carreira internacional. Em 1960, Alice escreveu melancolicamente: "Tive apenas cisnes como companhia este ano - o pai, a mãe + o filhote" (Alice Winnicott, 1960). Ela então descreveu para Winnicott todos os diferentes pássaros que havia visto, concluindo: "Me escreva. Gostaria de vê-lo" (Alice Winnicott, 1960). Em 1961, Alice mudou-se para uma fazenda em Cardiganshire, no País de Gales, onde passaria o resto da vida, infeliz e um tanto desolada, relembrando os dias felizes de seu casamento e o tempo agradável passado na casa da família dos Winnicott em Plymouth. Winnicott continuou enviando-lhe materiais de leitura, inclusive seus próprios livros, e um folheto sobre as ruínas de Stonehenge. Alice mandou-lhe um par de luvas e uma agenda especial da Sociedade Real de Horticultura, que continha dicas sobre como plantar e também sobre pragas (Alice Winnicott, 1961a). Em 1º de setembro de 1961, ela escreveu: "Você vai alguma vez a Rockville agora, para ficar lá? Parece que faz tão pouco tempo que eu estava lá, ocupada, colhendo laranjas para que a Mamãe fizesse geléia, alimentando os peixes dourados do laguinho ou atravessando na balsa, com você, para Oreston". Pouco depois, na mesma carta, ela continua de forma ainda mais triste: "Eu desejo tanto que você pudesse ter sido feliz conosco. Minha velha égua tem um potrinho e estão ótimos juntos, vivendo logo aqui atrás" (Alice Winnicott, 1961b). Sem dúvida, Alice lamentava os filhos que ela e Donald nunca tiveram. Tragicamente, ela sofreu na velhice em relativa obscuridade, com sua irmã mais velha, Mary, que sofria de paralisia, praticamente como única companhia. Alice Winnicott morreu no dia 19 de novembro de 1969, no Hospital Bronglais, em Aberystwyth, de broncopneumonia, hipotermia e disfunção renal, completamente desamparada e praticamente esquecida. Os anos 40 trouxeram a Winnicott um tremendo caos doméstico e vários outros motivos de infelicidade, entre os quais a morte de seu pai, Sir Frederick Winnicott, no dia 31 de dezembro de 1948, aos noventa e três anos de idade. Logo em seguida, Winnicott sofreria a primeira de uma longa série de tromboses coronárias, que o atormentariam até a morte. O primeiro ataque coincidiu não somente com a morte de seu pai, mas também com o colapso final do casamento. Para convalescer, Winnicott tirou férias do trabalho no Hospital Infantil Paddington Green por cerca de três meses (Irmi Elkan, comunicação pessoal, 6 de outubro de 1994). Ele havia sofrido uma grande sobrecarga emocional nessa época, e muitas noites ele não suportava voltar para casa em Pilgrim's Lane, dormindo no consultório na Queen Anne Street - sem dúvida um desconforto em vários aspectos (Irmi Elkan, comunicação pessoal, 6 de outubro de 1994). Ele tinha ainda que enfrentar um trabalho clínico altamente desgastante, mesmo que sempre muito interessante. Um de seus pacientes, uma menina com anorexia grave, de apenas doze anos de idade, causou-lhe muita ansiedade, e ele fez com que ela fosse admitida numa das alas de pediatria geral do Paddington Green. Infelizmente, ela tinha uma enorme dificuldade em ingerir comida, e ficou muito doente. Winnicott visitava-a regularmente no hospital, o que ajudou a melhorar o seu estado, mas após o ataque cardíaco ele não pôde mais visitá-la e ela foi se deteriorando, recusando qualquer tipo de alimentação e finalmente morreu (Irmi Elkan, comunicação pessoal, 6 de outubro de 1994). Como curiosidade, não é totalmente verdade o que Winnicott escreveu a respeito de quase não perceber os ataques aéreos devido à sua absorção no trabalho com homens e mulheres psicóticos. De fato, no dia 3 de março de 1943, durante uma reunião da Sociedade Britânica de Psicanálise em sua sede em Gloucester Place, 96, começou a soar um alarme anti-aéreo e começou-se a ouvir explosões esporádicas. Com toda a audiência sentada escutando com atenção um ensaio sobre neuroses de guerra (Rosenberg, 1943), Winnicott levantou-se e disse: "Eu gostaria de mencionar que está havendo um ataque aéreo" (citado em Little, 1985, p. 19). Aparentemente, poucos tomaram conhecimento do que Winnicott havia dito, e a palestrante, a Dra. Elizabeth Rosenberg (que seria lembrada mais tarde por seu nome de casada, Elizabeth Zetzel), prosseguiu a leitura de seu texto (cf. Zetzel, 1969). Era característico de Winnicott manter-ser vigilante não apenas em relação ao mundo interno da sociedade psicanalítica, como também à realidade externa das bombas. Em 1951, dois anos após o fim de seu casamento, Donald Winnicott casou-se pela segunda vez. Como já mencionamos, ele conhecera sua nova esposa, Clare Britton, durante o trabalho com as crianças evacuadas. A Sra. Britton havia se formado como assistente social em 1939, e já tinha uma certa experiência em trabalho de campo. Juntos, Britton e Winnicott trabalharam muito para dar conta dos abrigos psiquiátricos, tornando-se expecialistas tão reconhecidos no manejo e tratamento de jovens "difíceis" transferidos de Londres, que o Comitê Curtis convidou-os para fornecer relatórios orais e escritos sobre suas experiências, o que constituiu, em parte, a base para o Estatuto da Criança de 1948 (Clare Winnicott, 1984). Sem dúvida, Winnicott e Britton iniciaram sua relação amorosa bem antes do fim do casamento com Alice. A Dra. Josephine Lomax-Simpson (1990) lembra que, durante o seu tempo de serviço para o Plano de Evacuação do Governo, Donald Winnicott e Clare Britton dividiram um apartamento em Oxford, num local conhecido como as MacFisheries. Lomax-Simpson visitava freqüentemente o prédio, pois seu pai, o arquiteto da Unilever House e de outras construções, o havia desenhado. De qualquer forma, o relacionamento entre Donald Winnicott e Clare Britton teve início numa base profissional. Winnicott supervisionava o trabalho clínico de Britton, e mais tarde ela recordaria essas sessões com seu futuro marido como "o melhor da semana" e "uma formação de valor inimaginável" (Clare Winnicott, 1984, p. 3). Os dois até mesmo escreveram juntos um ensaio para publicação sobre "The Problem of Homeless Children" (Winnicott & Britton, 1944), seguido por outro artigo em conjunto, "Residential Management as Treatment for Difficult Children" (Winnicott & Britton, 1947). Winnicott muito raramente escrevia em colaboração com outras pessoas. Pelo que nos consta, ele o fez apenas em outras duas ocasiões: no início da carreira, escreveu seu primeiro ensaio médico com um colega pediatra (Winnicott & Gibbs, 1926), e mais tarde escreveu a crítica de um livro juntamente com seu paciente e colega Masud Khan (Winnicott & Khan, 1953). E, é claro, assinou seu nome numa carta escrita em conjunto com John Bowlby e Emanuel Miller (Bowlby, Miller & Winnicott, 1939). Logo, Winnicott deve ter se sentido especialmente atraído por Clare Britton, atração que foi favorecida não somente por suas evidentes qualidades profissionais como também por sua beleza física. Um de seus antigos estagiários de serviço social descreveu-a como "uma tremenda louraça" ("a bit of a blonde bombshell"), e o Dr. Michael Fordham (comunicação pessoal, 13 de fevereiro de 1994) qualificou-a, de maneira um tanto técnica, como uma "mulher anima" - gíria jungiana para femme fatale. Em pouco tempo a relação profissional tranformou-se num relacionamento amoroso, e é provável que Winnicott tenha começado a tomar providências para o divórcio a fim de poder casar-se com Clare. Por volta de 1952, Winnicott já havia alugado uma casa grande e muito bonita para a sua noiva, localizada na Chester Square, nº 87, no distrito exclusivo de Belgravia. Ele alugou a casa ao patrimônio de Grosvenor, pertencente ao Duque de Westminster (Colin J. Mackenzie-Grieve, comunicação pessoal, 10 de outubro de 1994). Posteriormente, mudou seu consultório particular para a Chester Square, deixando de usar o da Queen Anne Street. Depois de qualificar-se como psicanalista, Clare Winnicott também passou a tratar seus pacientes ali. Donald e Clare gozavam de um relacionamento bem mais harmonioso, e Clare dividia com seu marido não somente o seu interesse profissional por crianças e por psicoterapia, mas também a paixão pela dança (Clare Winnicott, 1978). O psicanalista francês Serge Lebovici lembra que, "Num congresso em Roma, fiquei bastante impressionado pelo tanto que ele parecia estar apaixonado por sua esposa, e não me pareceu um exagero quando ela me falou sobre como ele dançava com ela nos coquetéis durante as conferências" (citado em Clancier, 1984b, p. 134). O novo casamento parecia basear-se tanto na amizade e nos interesses profissionais quanto na sensualidade. Sob a orientação de Winnicott, sua nova mulher submeteu-se a uma nova formação, qualificando-se como psicanalista em 1961, tendo feito tratamento psicanalítico por algum tempo com o Dr. Clifford Scott (que também havia tratado de Alice Winnicott) e mais tarde com a tempestuosa Melanie Klein. (Após a morte de Winnicott, Clare submeteu-se a um período de tratamento com Lois Munro e mais tarde com o Dr. Peter Lomas; Charles Rycroft, comunicação pessoal, 27 de janeiro de 1996). Clare Winnicott achou a análise com o Dr. Scott de certo modo insatisfatória, e disse ao marido que desejava fazer uma re-análise com Melanie Klein, explicando: "Acho que ela é forte o bastante para mim" (entrevista, 18 de setembro de 1981, citado em Grosskurth, 1986, p. 451). Winnicott não se opôs a esse tratamento, ainda que sua relação com a Sra. Klein estivesse se tornando cada vez mais tensa. Donald Winnicott proucrou Klein em nome de Clare para discutir os detalhes, lembrando a Klein de que ela lhe devia um favor em troca do tratamento que Winnicott realizara com seu filho Erich, vários anos antes. Klein aceitou e começou a trabalhar com Clare, que gostava da incrível memória e do senso de solidez e força de Klein. Entretanto, Clare partilhava da objeção de seu marido, que achava que Klein ignorava demais o mundo exterior, chegando a doutrinar sua paciente: "Não adianta falar sobre sua mãe, [pois] não podemos fazer mais nada agora" (ibid., p. 451). Pouco antes da morte de Klein, Clare Winnicott narrou-lhe um sonho durante uma sessão e Klein passou vinte e cinco minutos - contados por Clare no relógio - fornecendo-lhe uma interpretação. A Sra. Winnicott ficou enfurecida e exclamou: "Como você ousa tomar o meu sonho e jogá-lo na minha cara?" (ibid., p. 452), e foi embora. Parece que Winnicott intercedeu por sua esposa, mas Klein respondeu que ela não poderia ser analisada pois "é muito explosiva" (ibid., p. 452). Winnicott implorou a Clare que retornasse às sessões, caso contrário sua formação no Instituto de Psicanálise ficaria comprometida. Uma semana mais tarde, Clare Winnicott voltou, resmungando: "Voltei nos seus termos, Sra. Klein, não nos meus" (ibid., p. 452). O tratamento prosseguiu de forma acelerada e, pouco antes de sua morte, no dia 22 de setembro de 1960, Melanie Klein informou a seus colegas que Clare Winnicott podia ser qualificada como psicanalista com todos os créditos. Ao longo de sua vida profissional, Clare Winnicott escreveu alguns textos interessantes sobre serviço social e psicanálise (por exemplo, Britton, 1955; Clare Winnicott, 1963, 1980), assim como uma pequena coletânea de ensaios (Clare Winnicott, 1964); trabalhou ainda como supervisora de puericultura (child care) no curso de Puericultura da Escola Londrina de Economia e Ciências Políticas. Ela recebeu uma nomeação como palestrante encarregada do novo Curso Prático de Assistência Social da mesma escola, em 1947; foi, mais tarde, palestrante do curso de Estudos Sociais Aplicados entre 1957 e 1964. Nesse mesmo ano tornou-se diretora dos Estudos Puericultura do Departamento de Crianças do Ministério de Negócios Interiores, posto que manteve até a sua aposentadoria obrigatória, em 1971 (cf. Clare Winnicott, sem data). Durante esse período, trabalhou no Conselho Central de Formação em Puericultura (Central Training Council in Child Care) no prédio do Ministério de Negócios Interiores, a Horseferry House, na Dean Ryle Street, em Westminster, não muito longe de sua casa em Chester Square. Mais tarde, recebeu o título de O.B.E. (Officer of the Order of the British Empire, Oficial da Ordem do Império Britânico) por seu importante trabalho. Clare Winnicott foi ainda membro fundadora do Centro Robertson - organização criada para promover o trabalho de James e Joyce Robertson (1989), investigadores pioneiros em puericultura, cujos famosos filmes ajudaram a documentar os efeitos devastadores da separação entre pais e filhos durante os tratamentos hospitalares. Sem dúvida, Clare Winnicott deu um grande estímulo a seu marido, encorajando a sua criatividade. Não admira que Winnicott tenha produzido seus livros e textos mais originais e importantes durante o segundo casamento. Ele até mesmo dedicou um dos livros, The Family and Individual Developement (Winnicott, 1965b), simplesmente "A Clare". Pouco após eles se conhecerem, Winnicott escreveu a Clare: "Você faz com que eu me sinta perspicaz e produtivo, e isso é terrível - pois quando não estou com você sinto-me incapaz de qualquer ação e originalidade" (citado em Clare Winnicott, 1978, p. 32). Os que viram os dois juntos podem dizer o quanto eles realmente se amavam (por exemplo, Clancier, 1984b). Winnicott disse inclusive a seu colega Peter Tizard (1971) que ele provavelmente teria morrido vinte anos antes se não houvesse conhecido Clare. Winnicott provavelmente lamentava não ter tido filhos, já que gostava tanto dos filhos de outras pessoas, e mencionou sua tristeza a pelo menos uma aluna (Silvia Oclander-Gordon, comunicação pessoal, 14 de dezembro de 1991). A incapacidade de Winnicott de ser pai biológico pode explicar, em parte, por que ele estava sempre tão disposto a convidar alguns de seus pacientes frágeis e carentes para morar em sua casa. O casamento com Clare Britton não somente melhorou o bem-estar físico de Winnicott como, evidentemente, também ampliou intensamente a sua capacidade de trabalho e a sua produtividade, que assumiram novas proporções. Durante o casamento com Alice Taylor, Winnicott publicou apenas um livro, sobre pediatria (Winnicott, 1931a). Já com Clare Britton, produziu mais seis livros antes de morrer (Winnicott, 1957a, 1957b, 1958a, 1964a, 1965a, 1965b) e escreveu ensaios, palestras e cartas suficientes para completar mais doze volumes, que foram publicados postumamente (Winnicott, 1971a, 1971b, 1978, 1984a, 1986a, 1986b, 1987a, 1987b, 1988, 1989, 1993, 1996). Clare Winnicott também tinha uma grande habilidade em incentivá-lo. Com ela, ele até mesmo se daria ao luxo de deixar de lado suas enormes responsabilidades como protetor dos outros. Certa vez, ela machucou o pé e Winnicott saiu de casa para comprar gaze. Ele retornou duas horas depois com uma pulseira de ouro para ela, mas esquecera-se do curativo (Clare Winnicott, 1978). Nos anos 50 e 60, Winnicott desfrutou de uma vida rica e ocupada, cheia de incontáveis palestras públicas e de uma infinidade de horas de trabalho clínico, sem contar as aulas, supervisões e a elaboração de textos, assim como a participação considerável na administração de diversas organizações profissionais. Ele se dedicava particularmente às inúmeras oportunidades que lhe eram oferecidas de discutir suas idéias em público. Winnicott sempre falou bem, e sempre que dava palestras, o auditório ficava repleto (Gillespie, 1971b). Pouco após o fim da Segunda Grande Guerra, ele falou no seminário da equipe do famoso Hospital Cassel, que ocorria sempre às sextas-feiras à noite. Uma enfermeira de psiquiatria lembra que a equipe não o deixava sair e ele continuou falando até depois da meia-noite. Em outra ocasião, em 1965, Winnicott falou a um grupo de colegas, e a Srta. Doris Wills, psicoterapeuta infantil que trabalhou com Anna Freud e Dorothy Burlingham, escreveu-lhe, agradecendo-lhe pela participação. Obviamente, Winnicott havia outra vez atraído um grande público, e a Srta. Wills (1965) lhe comunicou que "Sua presença, como sabe, sempre atrai uma multidão considerável, e alguém murmurou para mim: 'A presença do Dr. Winnicott é tão boa quanto a dos Beatles!'" Winnicott sempre falou um inglês muito polido (Khan, 1975) e num tom lento e cadenciado e, apesar de aguda, sua voz poderia soar muito segura e reconfortante. A partir de 1936 ele passou a dar um curso regular sobre crescimento e desenvolvimento humano para professores do Instituto de Educação de Londres, a convite de sua amiga pessoal e colega, a Dra. Susan Isaacs (Winnicott, 1953f, 1967c; Clare Winnicott, 1988), e a partir de 1947 deu palestras para estudantes de assistência social na Escola Londrina de Economia e Ciências Políticas (Clare Winnicott, 1988), incluindo uma série de conversas sobre "A Clinical Approach to Family Problems", estendendo, assim, sua influência aos diversos ramos da saúde mental. Winnicott sempre teve muito trabalho para preparar suas palestras. Como escreveu a seu colega Michael Balint, com uma certa falta de modéstia, "Mesmo um texto de Winnicott tem que ser minimamente planejado com antecedência" (Winnicott, 1952d). Ele também comentou que seus textos requeriam um período de gestação inconsciente: "Por exemplo, quando escrevo um texto para esta Sociedade sobre algum assunto, vejo-me quase sempre sonhando com coisas relacionadas a esse assunto" (Winnicott, 1949d, p. 177, rp. 2). Como comentou sua viúva Clare (1988, p. ix): "Suas palestras podiam ser soltas e parecer desestruturadas apenas porque estavam baseadas num núcleo central de conhecimentos integrados". Considerando-se sua rotina extremamente congestionada, ficamos quase perplexos só de imaginar como ele conseguia preparar sua infinidade de palestras e manuscritos. Em pouco tempo, Winnicott desenvolveu uma boa reputação como conferencista interessante e espontâneo, e a British Broadcasting Corporation (BBC) convidou-o a falar para pais e mães pelo rádio. Entre 1939 e 1962 ele participou de cerca de cinqüenta programas sobre uma enorme gama de assuntos, que variaram desde a contribuição do pai (Winnicott, 1944b), o filho único (Winnicott, 1945d), a importância de visitar as crianças no hospital (Winnicott, 1951b) e a dinâmica da adoção (Winnicott, 1955d) até a psicologia dos pais adotivos (Winnicott, 1955f), o significado do ciúme (Winnicott, 1960f) e as vicissitudes da culpa (Winnicott, 1961f). Além dessas conversas individuais pelo rádio, Winnicott preparou ainda dois conjuntos completos de palestras memoráveis. Janet Quigley produziu a primeira série em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, e essas palestras apareceram posteriormente sob a forma de um panfleto, sob o título de Getting to Know Your Baby, que continha as transcrições de seis programas radiofônicos (Winnicott, 1945a) e era vendido por um shilling. A capa do pequeno folheto mostrava a reprodução de um entalhe em madeira de uma mãe com seu bebê feito por Alice Winnicott. É interessante notar que, para chegar ao estúdio de gravação da BBC, em Langham Place, no centro de Londres, Winnicott tinha que passar com seu carro, como ele mesmo lembra, "por cima dos vidros e do entulho do ataque aéreo da noite anterior" (citado em Bollas, Davis & Shepherd, 1993, p. xiv). Outra produtora, a Srta. Isa D. Benzie (também conhecida como Sra. Royston Morley), do Departamento de Palestras da BBC, ofereceu a Winnicott a oportunidade de preparar várias outras palestras sobre o tema "The Ordinary Devoted Mother", que foram ao ar em 1949-1950. Nove transmissões dessa série foram lançadas no panfleto The Ordinary Devoted Mother and Her Baby: Nine Broadcast Talks (Autumn 1949) (Winnicott, 1949a). Essas transmissões atingiram milhões de pessoas. Até hoje, aqueles que lêem as transcrições (Winnicott, 1957a, 1957b, 1964a, 1993) ficam maravilhados com a capacidade de Winnicott de se comunicar de maneira educada e espontânea com os pais e de oferecer-lhes bons conselhos e suporte sem degradar o que ele chamava de sua habilidade natural para compreender os próprios filhos (Winnicott, 1949c). Sua reputação como conferencista radiofônico sobre temas de psicologia cresceu tanto, que certa vez Eileen Molony (1958), produtora do programa de rádio da BBC "Pais e Filhos", implorou-lhe para que participasse de seu programa: "Ninguém vai acreditar no meu programa até que o senhor apareça nele!" Winnicott não somente dava palestras com freqüência como escrevia abundantemente. Ele recebeu grande ajuda de sua excelente secretária, a Sra. Joyce Coles, e de seu dedicado editor o Príncipe Masud Khan. A Sra. Coles digitava e o Sr. Khan editava, e juntos transformaram os manuscritos de Winnicott em vários volumes de ensaios. Todos os domingos, Khan (1988) passava duas horas ou mais na casa de Winnicott, em Chester Square, 87, Belgravia, dedicando-se a essa tarefa. No presente momento, nada menos que vinte volumes levam o nome de D. W. Winnicott como autor, inclusive um volume de cartas (Winnicott, 1987b) e outro livro de ensaios, intitulado Thinking About Children, agora no estágio final de preparação (Winnicott, 1996; cf. Davis, 1987; Farhi, 1991). Além de produzir esse grande número de livros, capítulos, artigos e críticas, assim como memorandos de hospitais (por exemplos, Winnicott, 1955h), ele gastava um bom tempo com sua volumosa correspondência. Essa tarefa tornou-se mais fácil depois que Joyce Coles, a secretária, criou para ele em 1957 um esplêndido sistema de arquivos, guardando cópias em carbono da maioria das cartas profissionais. Porém, apesar de essa tarefa lhe tomar um tempo precioso, ele ainda escrevia mais cartas do que o necessário. Por exemplo, sempre que um colega fazia uma palestra num Encontro Científico da Sociedade Britânica, Winnicott infalivelmente lhe enviaria uma carta de congratulações de algum tipo, expressando opiniões particulares que ele nem sempre chegava a enunciar durante a discussão (cf. Winnicott, 1960g). Suas cartas tornaram-se quase lendárias e, após receber uma delas, o Dr. Michael Balint (1960) respondeu: "Logicamente, eu estava esperando sua carta pós-palestra, que a esta altura já se tornou, para todos os efeitos, uma instituição psicanalítica". O próprio Winnicott (1960i) percebeu que sua predileção pela correspondência muitas vezes excedia os limites comuns e, numa carta à Dra. Ilse Hellman, também psicanalista, confessou: "Tenho uma certa fama por escrever cartas, e estou tentando deixar esse vício". Após sua morte, ele deixou centenas de fascinantes cartas inéditas, que sua esposa preservou em cadernos especiais (Rodman, 1987a). Conforme sua fama crescia e o altíssimo nível de seu trabalho tornava-se mais conhecido, seus colegas o agraciavam com numerosas nomeações, prêmios e outras honrarias. Dentro da Sociedade Britânica, ele foi analista didata, membro da Diretoria e do Conselho, secretário científico, secretário de formação analítica e presidente de um simpósio feito em 1944 sobre a Contribuição da Psicanálise para a Teoria da Terapia de Choque (Simposium on the Psycho-Analytic Contribution for the Theory of Shock Therapy), sem contar os vários seminários e palestras para psicanalistas estagiários do Instituto de Psicanálise. Ele trabalhou também como médico-chefe do Departamento Infantil da Clínica de Psicanálise de Londres - posto que manteve por cerca de vinte e cinco anos -, proporcionando tratamento analítico a crianças cujos pais, na maioria dos casos, não podiam pagar uma psicoterapia particular. Durante um certo tempo, ele também trabalhou intensamente como presidente do Comitê de Publicações do Instituto de Psicanálise. Além disso, foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise em duas ocasiões, primeiro de 1956 a 1959 e depois de 1965 a 1968. O Dr. John Bowlby foi o vice-presidente durante o primeiro mandato de Winnicott. Após sua eleição para a presidência, em 1956, a Sociedade Britânica de Psicanálise ofereceu um formidável baile em sua homenagem (Lomax-Simpson, 1990). O Dr. John Padel (comunicação pessoal, 4 de dezembro de 1991) e o Dr. Charles Rycroft (comunicação pessoal, 29 de novembro de 1993), colegas mais jovens de Winnicott, lembram que ele não tinha qualquer habilidade para trabalhar em comitês e que seus mandatos foram um tanto ruins, pois ele não dava muita atenção aos detalhes. Ao invés disso, destacou-se pela realização de empreendimentos ousados, como o lançamento das Palestras de Inverno sobre psicanálise, que constituíram a primeira tentativa sistemática de disseminar idéias psicanalíticas entre o grande público. Essas conversas, realizadas no Porchester Hall, na Porchester Road, em Londres, constituiram a base da série de palestras públicas enormemente popular patrocinada pela Sociedade Britânica de Psicanálise. O Dr. Thomas Hayley (1991), psicanalista que coordenou as palestras em nome de Winnicott, notou que, em média, uma palestra atraía até quatrocentos convidados, mas que quando o próprio Winnicott falava, o número de espectadores crescia para cerca de seiscentos. A Sra. Beta Copley (comunicação pessoal, 20 de outubro de 1994) mencionou uma vez em que Winnicott relatou o caso de um médico bastante doente - presume-se que seja o mesmo descrito em profundidade no livro de Winnicott (1986a), Holding and Interpretation: Fragments of an Analysis. Copley afirma que Winnicott descreveu seu paciente de forma tão vívida que era possível até mesmo imaginá-lo sentado ali, bem ao lado de Winnicott. Seus colegas o convidaram diversas vezes para ser o líder de sua própria facção dentro da sociedade psicanalítica, mas ele sempre se recusou a fazê-lo (Gillespie, 1971b; James, 1991), aparentemente por modéstia. É interessante ressaltar que Winnicott completou dois mandatos como presidente da Sociedade, da mesma forma que seu pai fora prefeito de Plymouth. Poderíamos imaginar que um período como presidente o teria deixado satisfeito, mas talvez uma necessidade profunda de identificar-se e, posteriormente, vencer o pai, tão bem sucedido, teria estimulado sua ambição. No cenário psicanalítico internacional, Winnicott foi presidente do famoso comitê de investigações da Associação Psicanalítica Internacional, que investigou a prática clínica do analista francês, o Dr. Jacques Lacan. Em 1953, Winnicott e vários colegas (a Dra. Phyllis Greenacre, a Sra. Hedwig Hoffer e a Dra. Jeanne Lampl-de Groot) entrevistaram diversos membros da instituição de Lacan, a Société Française de Psychanalyse, assim como membros da clássica Société Psychanalytique de Paris, que alegavam que Lacan conduzia sessões de psicanálise mais curtas. O comitê, com razão, expressou sérias dúvidas a respeito do trabalho de Lacan como profissional (cf. Hartmann, 1953, 1955; Clancier & Kalmanovitch, 1984, Roudinesco, 1993). Winnicott também demonstrou ser de grande ajuda no estabelecimento de uma sociedade de psicanálise na Finlândia, juntamente com sua colega britânica, a Srta. Pearl King, fazendo visitas e oferecendo seminários de supervisão numa série de ocasiões. Além disso, realizou duas grandes turnês de palestras pelos Estados Unidos da América, uma em outubro de 1962 e outra em outubro de 1963. Sabemos pelos próprios textos de Winnicott (1963c) que pelo menos um paciente sofreu devido à sua ausência durante essas viagens. Ele ainda retornou aos Estados Unidos pelo menos em duas ocasiões, em outubro de 1967 e finalmente em novembro de 1968, para falar na Sociedade Psicanalítica de Nova York (Winnicott, 1969b) e em outras instituições (Winnicott, 1968g; Robert Langs, comunicação pessoal, 21 de abril de 1994). Winnicott deu palestras na Escócia por diversas vezes. Entre as visitas à Europa Continental estão palestras em Paris, Roma, Genebra, Copenhagen, Lisboa, Helsinque e Amsterdã. Além disso, fez pelo menos uma conferência no Canadá. Ele também realizou um grande número de palestras pelo interior da Inglaterra, para um grande variedade de organizações. (Veja o Apêndice B). Dentro da comunidade psicoterapêutica mais ampla, Winnicott trabalhou incansavelmente para promover organizações. Por exemplo, tornou-se um dos principais incentivadores do desenvolvimento da Associação de Psicoterapeutas (Scarlett, 1991). Também integrou a diretoria da Clínica para Crianças Nervosas e Difíceis, encabeçada pela Dra. Margaret Lowenfeld, uma das pioneiras verdadeiramente independentes da disciplina da Psicoterapia Infantil na Grã-Bretanha (Urwin, 1988; Davis, 1991), e ficava muito satisfeito por poder dar assistência a seus colegas numa base regular. Ele forneceu um grande número de cartas de recomendação para colegas mais jovens que se candidatavam a programas de formação em psicoterapia (por exemplo, Winnicott, 1964d); escreveu em solidariedade à viúva de um colega psicanalista falecido, para ajudá-la a obter dinheiro do Royal Medical Benevolent Fund para os membros restantes da família (Winnicott, 1957i), auxiliou acadêmicos com projetos de pesquisa (por exemplo, Roazen, 1975) e também ajudou pelo menos um colega a conseguir um visto para viver na Inglaterra (Balkányi, 1957). Ele ainda recebeu vários pedidos de encaminhamento de pacientes por parte de profissionais mais jovens, (por exemplo, Carr, 1963; Lomas, 1963), os quais Winnicott freqüentemente atendia. Entre as homenagens prestadas a Winnicott estão sua eleição, em 1944, como membro do Royal College of Physicians (F.R.C.P.), além da Royal Society of Medicine e da British Psychological Society. Obteve também outros cargos, como o de presidente da Seção Médica da British Psychological Society, presidente da Seção de Pediatria da Royal Society of Medicine e presidente da Associação para Psicologia e Psiquiatria Infantil. Em 1955, tornou-se também conferencista do Departamento de Desenvolvimento Infantil do Instituto de Educação da Universidade de Londres. Finalmente, em 1968, foi eleito membro honorário da Royal Medico-Psychological Association, e recebeu a cobiçada Medalha James Spence de Pediatria, prêmio que leva o nome de um dos heróis pessoais de Winnicott, o Professor Sir James Spence, ilustre médico de crianças nascido em Newcastle-upon-Tyne, o qual insistia em que as mães e os bebês recém-nascidos não deviam ser separados no momento do nascimento - até hoje um procedimento muito comum nas maternidades (Winnicott, 1948b). A Sociedade Psicanalítica Finlandesa também homenageou Winnicott, convidando-o a tornar-se membro honorário. Todas essas eleições e prêmios ilustram o respeito que Winnicott granjeou entre seus colegas tanto no campo da psicanálise quanto no da medicina de um modo geral. Sem dúvida, Winnicott deve ter feito fantasias sobre receber o título de Cavaleiro das mãos da rainha Elizabeth II. Afinal, seu pai, Frederick Winnicott, o havia recebido, e Donald Winnicott deve ter visto seu trabalho pioneiro pelo bem das crianças como mais importante que as atividades cívicas de seu pai. Já mais perto do fim da vida, Winnicott escreveu um ensaio sobre a monarquia, onde mencionou que vivia bem próximo do Palácio de Buckingham. Sabemos que ele tinha vontade de encontrar-se pessoalmente com Elizabeth II, e no texto sobre "The Place of the Monarchy" (Winnicott, 1970c, p. 266) ele até mesmo permitiu-se ponderar a respeito da monarca, afirmando que "ela é um ser humano que posso ver, enquanto espero por um táxi, saindo em seu carro do Palácio de Buckingham para cumprir alguma obrigação, a qual faz parte do desempenho do papel que o destino lhe designou". Infelizmente, nem Winnicott nem qualquer outra pessoa jamais tornou-se Cavaleiro por serviços prestados à psicanálise.
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