Trecho da Dissertação de Mestrado "Morte e Ressurreição do Eu e do Outro", de Davy Bogomoletz.

Especificidade da Psicanálise
Winnicottiana

D. W. Winnicott consolidou sua carreira psicanalítica como discípulo de Melanie Klein, à época a grande líder teórica da Sociedade Britânica de Psicanálise. Médico especializado em Pediatria, Winnicott logo veio a trabalhar psicanaliticamente com crianças, e passou dez anos tendo supervisão de Klein, na década de 30. Com o tempo, sua criatividade pessoal não lhe permitiu seguir à risca as instruções teóricas e práticas de Klein, e por fim ele se viu líder (não assumido) de um grupo de psicanalistas que se autodenominava "independente" (o assim chamado "Middle Group" da Sociedade Britânica de Psicanálise). Esse grupo considerava-se independente tanto da liderança de Melanie Klein, quanto da liderança surgida posteriormente de Ana Freud, filha do criador da Psicanálise, que veio estabelecer-se em Londres à época da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Winnicott faleceu em 1971, deixando uma obra que só nos últimos anos vem alcançando a repercussão merecida. Dentro da Sociedade Britânica, como disse seu grande discípulo e seguidor M. Massud Khan, Winnicott era "polidamente ignorado" pelos psicanalistas ortodoxos. Seu grande respeito e mesmo afeição pessoal por Jacques Lacan, o monstro sagrado da psicanálise francesa, que acabou expulso da International Psycho-Analytical Association, não serviu, obviamente, para torná-lo mais palatável aos olhos dos "ortodoxos".

Winnicott não fundou um movimento à parte, nem criou uma escola. Ao contrário: Permaneceu oficialmente fiel à psicanálise "oficial", tendo sido eleito por duas vezes Presidente da Sociedade Britânica. Mesmo assim, não se pode subestimar a profunda subversão da norma introduzida por ele. Num livro de grande importância teórica e histórica, O gesto espontâneo, coletânea de cartas escritas por ele para um grande número de pessoas - inclusive a própria Melanie Klein - torna-se evidente toda a originalidade do pensamento de Winnicott, e o quanto estava ele consciente desse fato. Sua contribuição para a Psicanálise ainda não foi assimilada adequadamente pela grande maioria dos psicanalistas.

Uma das idéias chave na obra de Winnicott é a da integração. Esta noção propõe que a mente humana estrutura-se e organiza-se aos poucos, a partir de um estado natural de difusão e, para empregar um termo antes mencionado, anomia. A integração ocorre graças à predisposição natural do organismo humano nesse sentido, mas só ocorre se as condições do meio ambiente em que o indivíduo nasce o permitirem. Para que surja um indivíduo humano normal, portanto, a ação do meio (em geral, a família) é considerada decisiva por Winnicott. É preciso notar, entretanto, que a "ação" desse meio, capaz de possibilitar a integração, é muito mais uma "não ação", no sentido zen-budista, que um ato ativo no sentido industrioso e pragmático do ocidente. Ao contrário: A "ação" ativa por parte do meio destrói o processo de integração, impede-o ou provoca nele distorções dificilmente reparáveis a posteriori.

Segundo Winnicott, as mães (que, do ponto de vista do indivíduo recém-nascido, constituem na realidade o "meio" aqui mencionado), sempre souberam disso, e sempre trataram seus bebês de um modo que, se fosse estudado por um cientista ocidental, teria que ser descrito como "extraordinariamente sutil". No entanto, é a própria intuição da mãe devotada comum (outra expressão empregada por Winnicott com o peso de um termo técnico), que funciona sem qualquer deliberação intelectual de sua parte, o que proporciona ao bebê o meio ambiente necessário para que a sua tendência à integração ocorra.

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Leituras adicionais sobre as diferenças entre a psicanálise de Winnicott e outras proposições psicanalíticas podem ser encontradas nos livros "O Ser e o Viver", de Júlio de Melo Filho, e "Winnicott - o Trabalho e o Brinquedo", de Simon Grolnick, editora Artes Médicas, Porto Alegre, 1990.