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DO DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL PRIMITIVO À TENDÊNCIA ANTI-SOCIAL: Pequeno dicionário da Tendência Anti-Social: O período da dependência relativa abarca dois estágios: o do ‘incompadecimento’ (ruthlessness), ou incapacidade para sentir compaixão, em que o desejo do indivíduo só encontra barreiras na impossibilidade física, e o do ‘concernimento’ (concern), em que o bem estar do outro passa a funcionar como uma nova barreira para esse desejo. A partir do estágio do concernimento o indivíduo passa a levar em conta as conseqüências de seus atos para os que estão à sua volta. O processo de integração leva o bebê a perceber que as duas ‘mães’ são uma só, e que os dois bebês são ele mesmo em dois momentos diferentes, e é essa integração que permite que o concernimento aconteça. Agressividade – capacidade inata de movimentação, utilizada para alcançar as coisas desejadas a partir da capacidade de distinguir quais sejam elas. SOBRE LIMITE E FALTA DE LIMITE Temos que partir da idéia de que vivemos um e num paradoxo. Paradoxo é a co-existência de idéias que, por seu conteúdo, se contradizem, ou seja, que teriam existência plena se existissem sozinhas, mas que, co-existindo, permitem uma riqueza muito maior do conjunto total. Por exemplo: Todos gostam de café com leite. Todos sabem que o café poderia ser tomado sozinho, e o leite também. Todos sabem que o café, sozinho, tem um certo gosto, e o leite também. Seria perfeitamente possível bebermos somente café, ou somente leite. No entanto, tanta gente prefere café com leite, e não cada um dos dois isoladamente, que é possível falar de uma aprovação quase universal da junção dos dois. O café com leite possui um gosto próprio, que não é a soma dos gostos específicos do café e do leite. Sim, é preciso não esquecer que na equação café com leite está incluído o açúcar. Temos então café com leite e açúcar. Esse conjunto significa que cada uma das substâncias põe limite às outras duas. Cada uma delas, se excessiva dentro da composição, abafaria totalmente o gosto das outras duas. As três substâncias devem, então, equilibrar sua presença de modo a nenhuma das três abafar o gosto das demais. Então teremos café com leite (e açúcar) do jeito certo. Mas ‘do jeito certo’ é o jeito de cada um dos que bebem café com leite. Cada pessoa tem o seu ponto ótimo de preferência pessoal, e tolerará até certo ponto desvios na sua fórmula favorita. Mas sempre haverá um limite para o desvio, de modo que se uma única das três substâncias estiver presente em quantidade excessiva ou deficiente, a pessoa rejeitará o todo. A meu ver, podemos tomar o exemplo do café-com-leite como modelo para tudo na nossa vida. É por meio desse modelo que lidamos com aquilo que chamamos ‘realidade’. Que é sempre um paradoxo. O limite, então, tem a ver com duas coisas, que em si mesmas já são um outro paradoxo: O limite impede algo, e ao mesmo tempo possibilita outro. Não fosse o limite, uma das duas coisas impediria a existência da outra. O limite, então, é o que possibilita a duas coisas existirem lado a lado. É possível dizer, então, que o limite permite a coexistência, e portanto o próprio paradoxo. E por que o paradoxo é tão importante? Talvez porque o ser humano, à diferença dos outros animais, é complexo a ponto de não poder existir adequadamente sem que seja num ambiente paradoxal. Num ambiente simples, ‘lógico’, a vida humana é possível somente por breves momentos. Rapidamente o ‘caos’ contra-ataca, e o equilíbrio se restabelece. Temos em nossa vida amor e raiva. É impossível que um dos dois reine absoluto. Na ‘lógica’, um dos dois deveria instalar-se e apagar a existência do outro. Mas isto não é possível na prática. Temos vários binômios: fome – saciedade, calma – excitação, sono – correria, e assim por diante. Nenhum desses fenômenos pode ocorrer isoladamente por muito tempo. A vida seria impossível. A vida humana, então, nem pensar. O coração bate e pára, bate e pára. Vida é isso. Só a morte é um sossego eterno. Ou então, no caos, tumulto eterno. Se essa aparente contradição é inevitável, segue-se todo o resto. O limite, então, surge como necessidade da própria vida – a necessidade de não permitir que algo se estenda infinitamente. Na vida animal o limite é implícito. As espécies animais desenvolveram-se com limites embutidos. Daí sua força – elas conseguem evitar os perigos por mecanismos simples e inerentes a elas. Mas daí também sua fraqueza – se surgir um perigo para o qual elas não estão preparadas, nada poderão fazer contra ele. A espécie humana vem ao mundo sem esses limites implícitos. Precisa, então, de limites vindos de fora. Aprendidos. Mas esta é, por sua vez, a grande vantagem da humanidade: a capacidade de inventar novas defesas contra perigos inesperados. O ser vivo vive à beira da morte. ‘Viver’ consiste em não ultrapassar essa beira. Para o animal, a maior parte dos limites que o impedem de ir longe demais estão embutidos dentro dele. Para o ser humano eles são dados pelo que este é capaz de aprender – de longe, o animal humano é o mais capaz de aprender – com a própria experiência e com a experiência alheia. Os limites aprendidos permitem ao ser humano também manter o equilíbrio entre os dois lados de qualquer paradoxo, caso contrário o excesso de um lado e a deficiência do outro levarão à morte. Se assim é, toda a vida humana será pautada por esse conflito essencial entre os dois lados de qualquer coisa. E a vida humana consiste, à diferença da dos outros animais, em realizar-se num contexto social, onde muitos exemplares da mesma espécie convivem num mesmo espaço. Quando a mãe, de algum modo, falha em sua tarefa, teremos um ser que precisa defender-se sozinho contra o terror. Como diz o povo, ‘a melhor defesa é o ataque’. E assim, atacando, aquele cuja mãe falhou em mantê-lo longe do terror expulsa o terror de perto de si, adia o ‘dia do juízo final’ e vai vivendo, naquele tipo de vida que nós outros conhecemos como ‘criminalidade’. Aparentemente, os ‘fora-da-lei’ odeiam o limite. Mas não. Por um lado, porque todos nós odiamos o limite, então não são eles que o odeiam. Por outro, porque sem limites o que existe não é liberdade, mas loucura. Caos. Morte psicológica, que geralmente leva à morte física. O fato é que as quadrilhas de foras-da-lei têm os seus próprios limites. Suas próprias regras do jogo. Só há um tipo de jogo em que não há regras: o brincar. Brincar, no sentido estrito do termo, significa fazer algo sem utilidade nem sentido, pelo simples prazer de fazê-lo. Estar numa piscina, por exemplo. Deitar-se na praia para ‘pegar sol’. Improvisar música num instrumento quando não há ouvintes. Jogar joguinhos no computador. Fazer carrinhos de brinquedo andarem para lá e para cá. Coisas desse tipo. Quando há utilidade e / ou sentido, falamos em jogar, não em brincar. E no jogo há sempre regras. Quando entra em ação o fenômeno da regra, do limite, estamos no reino do jogo, da lei. No brincar contam só a imaginação e a vontade. No jogo conta também o limite. É impossível viver em sociedade sem ele. Por isso o brincar, geralmente, é solitário. Todo ser humano tem necessidade de duas coisas antagônicas: de previsibilidade (segurança), e de liberdade (agressividade). Não é possível viver dignamente sem um mínimo de ambas as coisas, que em essência são mutuamente excludentes. Então vivemos na corda bamba entre as duas. Paradoxo. Encontrei uma boa citação de Winnicott que diz tudo isso: Num outro lugar encontro palavras de Jan Abram e duas citações de Winnicott encontradas por ela (The Language of Winnicott, Karnac Books, pág. 11): Do meu ponto de vista, existem três processos cujo início ocorre muito cedo: 1 – integração (transformação dos vários ‘núcleos’ de ego num todo razoavelmente organizado); 2 – personalização (integração psique – soma, o eu e o corpo formando um todo); 3 – em seguida a estes, a apreciação do tempo e do espaço e de outros aspectos da realidade – numa palavra, a realização. Uma grande parte do que tendemos a considerar óbvio teve um começo e uma condição a partir dos quais iniciou-se o seu desenvolvimento. (P.P. ##) Este é, na verdade, um retrato do que podemos chamar de ‘vida humana perfeitamente normal’. O ‘normal’, portanto, inclui a transgressão. Mas trata-se de uma transgressão em condições regidas pelo amor e pela confiança, não pelo ódio ou pelo medo. Quando a transgressão é realizada em condições de medo/ódio, tudo muda de figura. O sujeito da transgressão não pode ser chamado dessa forma: ele não é sujeito, é objeto, pois não se trata de vontade e sim de compulsão. O impulso a roubar ou a destruir não é regido pela liberdade de escolha. É algo compulsório. É uma reação a uma perda. Mas não pode ser tratado facilmente porque a perda não foi de ‘algo’, foi de ‘tudo’. Winnicott fala de um self verdadeiro e de um self falso. No primeiro, o self se forma pela acumulação de experiências predominantemente ativas, em que o bebê é o sujeito da ação, na medida em que sua espontaneidade é aceita e acolhida pelas pessoas em volta. No segundo, ele se forma pela acumulação de experiências predominantemente passivas, em que ele é o objeto da ação de outra pessoa. Na tendência anti-social o que vemos é que um self verdadeiro, acostumado a sentir-se sujeito da ação, vê-se repentinamente destituído dessa condição, percebe-se não mais sujeito da ação, mas objeto dela, e isso muda tudo. A tendência anti-social é deflagrada por uma pá de cal sobre os sentimentos de confiança e de segurança da criança, e sobre seu sentimento de ser o sujeito da ação (ao menos em quantidade suficiente). A t.a.s. ocorre porque uma pessoa importante, uma figura de apego (Bowlby), desapareceu da vida criança por um tempo suficientemente longo para ela perder a esperança de reencontrá-la. Uma referência importante foi eliminada. Podemos imaginar alguém escalando o Everest, com um alpinista profissional seguindo na frente para mostrar o caminho e garantir a segurança. Se imaginarmos que lá pelas tantas esse guia desaparece, talvez entendamos como se sente a criança a partir dali. Desse momento em diante, o verdadeiro self dessa criança se esconde e surge em seu lugar um self aparentemente muito bonzinho, muito cordato e muito adaptado. Mas falso. É um self adaptado à tarefa de garantir que não haverá mais perdas. Se lembrarmos da frase genial de Férenczi, de que ‘as crianças sentem-se culpadas pelos maus tratos que recebem’, veremos que o self da criança adapta-se a isso: A não mais sentir-se culpado e portanto sujeito a novos maus-tratos. O resultado é como nas histórias de terror: A criança parece boazinha, mas assim que viramos as costas algo terrível acontece. Porque o self verdadeiro dessa criança não está adaptado coisa nenhuma. Está, ao contrário, em busca. Em busca do que perdeu, e em busca de vingança por ter perdido. O sentimento dessa criança, mesmo se a figura de apego acabou reaparecendo, é de ser órfã de pais vivos. Isto porque a experiência de ter perdido não se apagará, por mais que a perda tenha sido apenas temporária – do nosso ponto de vista. O terror sentido pela criança não desaparece com o reaparecimento da pessoa. Nem há, para ela, a possibilidade de realizar um luto e sair dele posteriormente. Porque, repito, a perda não foi só da figura importante. A perda foi também de si mesma. Por isso o luto é impossível, e por isso não há reparação. Infelizmente, o ser humano tem a tendência a generalizar (uma de suas capacidades mais importantes, mas ao mesmo tempo mais capazes de levar ao desastre). Por ela, os seres de referência que falharam tornam todos os outros seres humanos suspeitos e inconfiáveis. Daí a tendência anti-social ser tão difícil de tratar: há que, primeiro, fazer com que um campeão de desconfiança deixe de sê-lo, e só depois ocorrerá o tratamento. A dificuldade está em relacionar-se com alguém que não nos quer por perto – a não ser como instrumentos de satisfação de suas necessidades mais simples e imediatas. (Curiosamente, voltamos à noção de ‘mãe objeto’, aquela que satisfaz as necessidades do id, mas não supre as necessidades do ego. É a ‘mãe ambiente’, portanto, que morre ao desaparecer a referência.) Estamos, então, frente a uma criança – adolescente – jovem que sofre de Tendência Anti-Social. O que fazer? Não se pode suportar todo o caos criado por essa pessoa. Ela própria não o pode suportar. Temos que impedir que ela destrua o mundo. Mas como? Se a castigarmos será pior, porque confirmaremos para ela que confiança e segurança são impossíveis de alcançar. Confirmaremos que ela está diante de inimigos, e que portanto suas fantasias têm razão. Se não a castigarmos ela se sentirá ainda mais desprotegida, e tenderá a criar um caos ainda maior. O remédio está na contenção – no ato de tolher os movimentos do indivíduo, impedindo-o de agir do modo que lhe seria característico. Conter é a palavra chave do ‘tratamento’. Segurar, tolher, impedir, enfim, que o caos se instale. E isso é difícil. Não porque a força necessária seja inviável, mas porque a tendência humana geral é a da vingança, da retaliação. Essa é a grande questão em relação à tendência anti-social. Aqui, temos que inverter a célebre frase de Nietzsche: ‘Tudo aquilo que não me esmaga, me fortalece’, e dizer: Tudo aquilo que não é remédio para a t.a.s, é veneno e só a leva a piorar. Daí o apelido das prisões e reformatórios: universidades do crime. Tudo isto traça uma linha entre o desenvolvimento emocional primitivo segundo Winnicott e o bandido profissional e assumido, e desenha uma ‘teoria’ da delinqüência. A TENDÊNCIA ANTI-SOCIAL De um modo geral, Winnicott procurou sempre partir da saúde para entender a doença. Desde o seu trabalho sobre o jogo da espátula (um dos primeiros artigos psicanalíticos escritos por ele) nós o encontramos examinando o bebê emocionalmente saudável para entender como ele ‘funciona’. No entanto, relendo o que já estava escrito abaixo, pareceu-me possível descrever praticamente toda a contribuição psicanalítica de Winnicott partindo do tema ‘a tendência anti-social’. Para que ocorra o fenômeno ao qual ele deu esse nome, é preciso que uma parte muito grande do percurso do desenvolvimento emocional primitivo já tenha se realizado, sendo necessário descrever tanto isso quanto as suas alternativas – o desenvolvimento deficiente e todas as suas conseqüências, que podem ser listadas ponto a ponto. Assim, pela primeira vez ocorre-me a idéia de que logicamente é possível, na obra de Winnicott, partir da doença (ainda que ele explicitamente afirme que a tendência anti-social não é uma doença) para falar da saúde, o exato oposto do que ele próprio sempre procurou fazer. ‘Tudo ia bem até que algo aconteceu.’ Esta é a frase que poderíamos dizer ao observar a criança ou o adolescente com tendência anti-social. Isto quer dizer que o bebê, em seu desenvolvimento, encontrou um ambiente facilitador* suficientemente bom*, principalmente na decisiva fase da dependência absoluta.* Mais tarde, na fase da dependência relativa*, onde já tinha consciência da existência do ambiente, sofreu uma deprivação*, a perda abrupta de algo que era sentido como bom. Por contraste, o que ele chama de ‘privação’* refere-se a uma situação em que a falha do ambiente era constante e começou bem mais cedo. Na privação o ambiente é falho, inadequado: sua tarefa de adaptar-se às necessidades (egóicas) do bebê é realizada de modo insatisfatório. Trata-se de um ambiente que não consegue ser nem mesmo ‘suficientemente bom’.* Como a onipotência está ainda em pleno vigor, a falha é sentida como sendo do próprio bebê. Na deprivação o ambiente é suficientemente bom, e sua falha consiste em ‘revelar-se destrutível’ (do ponto de vista do bebê), quando uma das figuras importantes desaparece ou entra num estado em que a criança não recebe (por um tempo prolongado demais*) as respostas emocionais necessárias (casos de doença prolongada, depressão, etc.). Conhecemos a célebre frase de Winnicott: ‘O bebê é um ser eternamente à beira da angústia impensável. A tarefa primordial da mãe é mantê-lo afastado dali’. Isto equivale, nos termos do próprio Winnicott, a dizer que a mãe proporciona à criança pequena uma ilusão* de segurança ou mesmo de imortalidade*. Quer dizer, a mãe prega à criança uma tremenda mentira (‘Está tudo bem, meu filho. Nada vai lhe acontecer’). Quando tudo felizmente corre bem, a criança pequena torna-se um menino ou menina convencidos de que ‘segurança’ é algo totalmente confiável, e ‘confiança’ é algo perfeitamente possível. A mãe (e em seguida o pai) confirmaram que aquela ‘mentira’ era verdade, e que a grande verdade da vida (o perigo sempre possível) era uma mentira. Um grande sociólogo (Peter L. Berger, no livro ‘Um rumor de anjos’) mostrou que este é um dos fenômenos que apontam para a existência, no ser humano, da dimensão do sagrado, independentemente de qualquer educação religiosa. É esta a razão pela qual a ‘deprivação’ tem um efeito tão devastador: Ela destrói a ilusão de que o ambiente é indestrutível, de que os pais sabem realmente do que estão falando, de que a segurança é algo alcançável e de que a imortalidade pode ser realmente experimentada. Ocorrendo a deprivação, tudo que estava sendo construído pela criança desaba. A confiança se transforma em descrença, a segurança se revela uma ilusão (agora no sentido negativo do termo), e o ambiente seguro e tranqüilo é, agora, uma selva cheia de predadores. A própria criança, que estava em vias de adquirir uma identidade própria, não pode mais acreditar no que está acontecendo dentro dela. Como disse Marx, ‘tudo que era sólido desmanchou-se no ar’. (Ver, a esse respeito, o importante trabalho ‘A Mãe Morta’, de André Green, no livro ‘Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte.’) A deprivação ocorre geralmente entre os dez meses e os três, quatro anos de idade. Antes disso, a percepção do ambiente como externo ainda não é suficiente, e depois, é possível que a criança sobreviva (psicologicamente) ao desastre. (Quando Winnicott aponta limites de idade ele sempre acrescenta que está falando de ‘maioria estatística’ e não de limites reais.) Ao escolher o termo ‘tendência’, Winnicott tira do anti-social a categorização de uma doença, como a neurose* ou a psicose*. Quando a criança sofre a deprivação, ela entra num estado de angústia impensável,* e aos poucos vai se organizando numa espécie de estado neutro (congelado, de insensibilidade). (Como foi dito acima: ‘O bebê é um ser permanentemente à beira da angústia impensável....) Esse ‘estado neutro’ é enganador, pois à primeira vista dá a impressão de uma adaptação perfeita ao novo ambiente externo. Na verdade, é possível dizer que essa criança passa a se comportar como alguém perdido numa horrível floresta: cada passo é perigoso, cada sombra esconde monstros terríveis. O mais importante, então, é não se mexer muito para não atiçar os monstros... Mas este é só um lado da questão. O outro lado é aquilo que dá origem ao que Winnicott chama de ‘ansiedade (ou angústia) impensável’. Não há como fugir à idéia de que a melhor explicação para esse momento de terror é a idéia proposta por Lacan, do ‘Real’. Uma das características marcantes desse fenômeno, que, como sabemos, designa tudo aquilo que está para lá da experiência humana conhecida, da cultura, é sua capacidade de provocar um terremoto no solo psíquico do indivíduo. O encontro com o Real pode ser visto praticamente como um encontro com a morte. Uma pesquisa publicada na década de 70 nos Estados Unidos mostrou que os adultos sobreviventes a desastres de avião (que passaram, portanto, longos minutos encarando muito de perto a morte iminente, até descobrirem, depois, que não morreram...) não sofreram danos emocionais dignos de nota, salvo um: Tornaram-se incapazes de trabalhar e de cuidar de si próprios. Abdicaram da capacidade de serem responsáveis. Ou seja, recuaram, em seu desenvolvimento emocional, a uma fase de forte dependência. No fenômeno da deprivação ocorre, é fácil deduzir, esse encontro com o Real. Em termos winnicottianos, isto implica não só a quebra do vínculo afetivo, como também uma forte ameaça de quebra da onipotência. As conseqüências de tudo o que foi dito acima estão descritas a seguir. Como a criança anti-social ainda não havia conseguido internalizar um controle (aqui se pode dizer que a tendência onipotente da criança ainda não havia feito inteiramente as pazes com o princípio de realidade), ela exige do ambiente que a cerca que exerça esse controle. A falha ocorreu quando o ego já estava relativamente desenvolvido. (Do contrário, como vimos, teríamos a psicose). Para Winnicott, uma das características da saúde é a possibilidade de brincar*, que no anti-social se perde, dando lugar ao ato compulsivo. O brincar, diz Winnicott, necessita, para ocorrer, que exista um mínimo de segurança em termos ambientais. O que surge, quando ocorre a deprivação, é uma atividade compulsiva, não criativa, destituída do devaneio e da fantasia. O tratamento do anti-social se dá em termos de manejo, de perceber a esperança que nele resta e estar lá para que o indivíduo possa resgatar a crença perdida no ambiente. Diz Winnicott que esse tratamento pode ser feito às vezes pela própria família, mas tanto nesse caso como na psicoterapia o manejo terá de ser adaptado, e a tolerância e a compreensão serão fundamentais (ou seja, a volta a um estágio de dependência anterior, em que as exigências feitas à criança são bem menores). Assinala ele a importância de o ambiente intervir antes que os atos anti-sociais tenham alcançado a capacidade de produzir um ganho secundário, tornando-se então aceitáveis para o self, pois aí passaríamos a nos ver diante da delinqüência, onde o trabalho de resgatar a ausência do sentimento de culpa será muito mais árduo, requerendo um ambiente altamente especializado, em geral chamado de ‘reformatório’ ou, quando este também falha, ‘prisão’ (capazes de fornecer os limites que o ego não internalizou). Falando em termos de superego, o vínculo afetivo que se caracteriza pela confiança no ambiente leva a criança a integrar os controles ambientais considerados normativos ao seu instrumental de ação (o que antes chamamos de ‘a onipotência fazer as pazes com o princípio de realidade). Ao ocorrer a deprivação, quebra-se o elo de confiança e surge a destrutividade compulsiva, levando a criança a provocar, no ambiente, o exercício do controle – assim restabelecendo, indireta e contraditoriamente, o sentimento de ‘estar em casa’. Entre as características marcantes da tendência anti-social está a insistência em agir de modo a provocar reações: o indivíduo não ignora, em absoluto, as conseqüências que seu ato provocará, o que leva a concluir que ele necessita induzir tais conseqüências, embora estas pareçam desfavoráveis a ele. O julgamento moral do comportamento anti-social é terminantemente denunciado por Winnicott, que desse modo propõe – explicitamente – um modelo inteiramente novo de educação e de intervenção social: conter é o verbo a ser empregado nessas situações, jamais castigar. Das inúmeras contribuições originais de Winnicott à psicanálise e ao entendimento da natureza humana (o que quer que esta signifique) e das relações sociais, sua descrição da tendência anti-social parece ser a mais revolucionária em termos sociais. Seu alcance, sua importância vital e suas implicações para a administração escolar, social e jurídica ainda não foram compreendidas suficientemente, até hoje – e há que destacar o fato de que se trata de uma de suas primeiras descobertas pessoais, realizada logo após a Segunda Guerra Mundial. As palavras marcadas com asterisco indicam termos técnicos de Winnicott que farão parte de um “dicionário de citações”, onde cada termo técnico será comentado e ilustrado por inúmeras citações retiradas dos vários livros de Winnicott publicados no Brasil. Já estão prontos cerca de 50 desses termos, e o total, de mais de cem, provavelmente estará à venda ao final do presente ano.
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