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WINNICOTT: A FIDELIDADE DA HETERODOXIA Carlos Alberto Plastino
A filiação freudiana do pensamento de Winnicott é inquestionável, tendo sido reiteradamente reivindicada pelo próprio pensador inglês (Winnicott 1996, 10-11 e 1990,54). No entanto a criatividade clínica e teórica do pensador inglês é de tal envergadura, que é impossível não considerá-la heterodoxa. E de novo o próprio Winnicott que o assinala nos momentos em que se contrapõe criticamente à que denomina "psicanálise ortodoxa" (Winnicott,1975, 9,133) De fato, o pensamento winnicottiano não constitui apenas a continuidade ou mesmo o aprofundamento da obra teórica de Freud, mas representa o desenvolvimento criativo das idéias centrais –verdadeiras linhas de força- que organizam o pensamento na última parte da obra teórica do criador da psicanálise. A matriz comum não impede assim a existência de profundas divergências, dentre as quais a sempre lembrada questão da pulsão de morte é apenas o aspecto mais evidente. A originalidade do pensamento winnicottiano é de fato profunda. Sustentando-se numa prática clínica diferente, o psicanalista inglês encontrou subsídios empíricos para enriquecer, aprofundar e articular aspectos que, embora centrais na última teorização freudiana, foram insuficientemente articulados ou desconsiderados por boa parte da teorização pós-freudiana. Convém insistir na significação da experiência clínica para a criatividade e originalidade do pensamento de Winnicott. Assim como Freud, o autor inglês reconhecia a centralidade da experiência no processo de construção teórica. Não se trata, todavia, de um empirismo ingênuo (Freud, 1986b,113), mas de um olhar criativo, marcado pela subjetividade do observador. Winnicott não ignorava que existe um ponto de partida subjetivo em todo processo de pesquisa e ainda que a objetividade surge mais tarde, a partir da comparação de observações planejadas desde diversos ângulos. Este trabalho, a seu ver, permitia formular " hipóteses de trabalho muito úteis, hipóteses, é bom que se diga, que realmente funcionam" (Winnicott, 2000a, 234) A experiência de Winnicott, como se sabe, consistiu em décadas de trabalho com bebês, crianças, adultos e com as psicoses. Seu olhar foi assim dirigido não apenas para as questões vinculadas ao funcionamento do psiquismo e suas perturbações, terreno no qual brilhara o gênio criativo de Freud. Mergulhando em experiências dominadas por processos emocionais primitivos, Winnicott encontrou subsídios para pensar o processo de constituição do psiquismo e suas perturbações. Desde esta perspectiva, pode pensar a etiologia da psicose no bojo do desenvolvimento emocional primitivo, afastando-se da concepção que a pensa no contexto de um fracasso radical do processo de castração. (Winnicott, 2000b, 305 e 2000c, 336, 1975, 97b) Pôde ainda avançar mais do que Freud na concepção da constituição da subjetividade a partir da intersubjetividade, ultrapassando o pressuposto hegemônico na modernidade que pensava o sujeito como preexistente à sociedade. Além da diversidade da experiência clínica de Winnicott, outra questão deve ser considerada para poder compreender adequadamente tanto a complexa relação de sua teoria com a matriz freudiana quanto a originalidade e criatividade de seu pensamento. Mesmo para autores que privilegiam a experiência como fonte de produção de saber - como se viu, era o caso tanto de Freud quanto de Winnicott - a elaboração das experiências supõe a utilização de categorias teóricas abrangentes, categorias que exprimem de fato pressupostos ontológicos, epistemológicos e antropológicos. Na obra freudiana, os pressupostos do paradigma hegemônico na modernidade influenciaram diferentemente as sucessivas elaborações metapsicológicas. Nas duas primeiras sínteses, dita influência redundou em severos limites para a teorização dos achados clínicos, enquanto que na última síntese - os textos ditos da virada - o maior afastamento desses postulados permitiu proceder a uma profunda transformação da teoria psicanalítica, inserindo-a ao mesmo tempo entre os saberes que contribuíram para erodir os pilares que estruturaram o paradigma hegemônico na modernidade (Plastino, 2003, 429) . Não é este o lugar para desenvolver esta importante questão. Entretanto creio conveniente sublinhar sua importância através de alguns exemplos. Como é sabido, são pressupostos do Paradigma moderno a cisão entre o psiquismo e o corpo, a redução do psiquismo à consciência racional e a concepção do corpo conforme a metáfora maquínica. Estes pressupostos paradigmáticos limitaram a teorização das descobertas clínicas iniciais de Freud, de maneira que mesmo afirmando a precedência dos atos psíquicos inconscientes sobre os conscientes, e concebendo a consciência como uma caraterística que podia ou não acompanhar os atos inconscientes, na primeira elaboração metapsicológica Freud postulou a derivação da instância inconsciente a partir da consciência, mediante o processo de recalque. As novas evidências clínicas, bem como os impasses teóricos provocados por essa perspectivas, determinaram as sucessivas e profundas transformações nas concepções metapsicológicas, abrindo espaço para a postulação, nos textos da virada, do Id como inconsciente originário enraizado no corpo. Processo similar aconteceu com a questão dos afetos, inicialmente considerados insuscetíveis de existência inconsciente e tributários das significações veiculadas por representações conscientes, para serem posteriormente reconhecidos como o cerne da constituição do psiquismo. A significação destas transformações nas elaborações metapsicológicas freudianas e a relações destas com os pressupostos paradigmáticos da modernidade, merecem ser analisadas com cuidado. O termo "metapsicologia" foi sem dúvida adotado por analogia com a metafísica (Winnicott, 1996, 10) .Entretanto, se as categorias metafísicas se situam fora do alcance da experiência, organizando esta numa relação que poderia ser designada como de mão única (isto é, de cima para baixo), a metapsicologia mantém com a experiência psicanalítica uma relação bem mais rica e complexa. Ela organiza certamente a reflexão e a experiência, mas sofre também o impacto desta, sendo assim permanentemente suscetível de profundas transformações. Freud considerava suas categorias metapsicológicas como uma superestrutura especulativa, acrescentando que “todas e cada uma de suas peças deveriam ser sacrificadas e trocadas sem lamentações quando se verificasse sua insuficiência" (Freud, 1986c, 31). Assim, a relação da metapsicologia com a experiência psicanalítica é de mão dupla ou de circularidade. Em um primeiro movimento, as categorias metapsicológicas (elaboradas no contexto da vigência de pressupostos paradigmáticos) organizam a experiência psicanalítica, posteriormente os resultados desta impulsionam a transformação - por vezes radical - da metapsicologia. O impacto deste processo extrapola o campo estrito da teoria psicanalítica, dado que a crítica à metapsicologia se desdobra necessariamente na crítica dos pressupostos paradigmáticos que a inspiraram. Para mencionar apenas um exemplo, o enriquecimento do conceito de inconsciente na última parte da obra freudiana - isto é, o reconhecimento de sua indissociabilidade com relação ao corpo - e de sua capacidade de apreensão direta da realidade - contribuíram decisivamente para derrubar os pressupostos paradigmáticos que, na concepção hegemônica na modernidade, reduziam o psiquismo à consciência ao mesmo tempo que postulavam o dualismo corpo-psique e reduziam o conhecimento a um processo racional limitado à consciência. Embora a concepção da metapsicologia como superestrutura especulativa e provisória fosse explícita na obra freudiana, e as diversas "sínteses" metapsicológicas demostrassem na prática a operacionalidade desta concepção, diversos fatores fizeram com que as categorias metapsicológicas adquirissem notória rigidez, congelando a criatividade teórica e transformando-as não raro numa arma utilizada para controlar a "pureza doutrinal" e distribuir anátemas. A própria virada teórica empreendida por Freud a partir dos anos vinte, se de um lado incorporou conceitos radicalmente novos capazes de permitir pensar a complexidade do psiquismo humano, de outro manteve limites importantes.Transformando as relações humanas num campo de relações pulsionais com objetos externos, a psicanálise ortodoxa tornou-se incapaz de pensar a criatividade cultual e os aspectos essenciais do processo de amadurecimento humano (Loparic,1995). Winnicott fugiu dessa armadilha evitando as discussões metapsicológicas, ganhando assim espaço para aprofundar as intuições freudianas. Isto lhe permitiu ao mesmo tempo afastar-se de concepções ainda tributárias de aspectos centrais do paradigma moderno, em particular do determinismo e essencialismo, que influenciaram inequivocamente a elaboração da segunda teoria pulsional. Em carta a Ana Freud, e posteriormente a Michel Balint, reconhece sentir uma "profunda suspeita" pelos termos da metapsicologia psicanalítica, aventando a possibilidade de que dita suspeita se deva ao temor de que os termos metapsicológicos possam "fornecer uma aparência de compreensão onde tal compreensão não existe". Reconhece ainda que dita suspeita pode ser causada por "algo dentro de mim". Ou então pelas "duas coisas". O vitalismo winnicottiano. Finalmente, um terceiro fator deve ser considerado no intuito de apreender a complexa relação existente entre a teoria elaborada por Winnicott e a obra do fundador da psicanálise. Este fator pode ser designado como “vitalismo”. Winnicott adota explicitamente a perspectiva vitalista (Winnicott,2000,303) transformando-a na peça chave na articulação de sua teoria sobre o desenvolvimento emocional. Afirma assim a existência de uma tendência inata ao crescimento, incluindo nessa tendência um processo evolutivo no desenvolvimento emocional (Winnicott, 2001,5). A atualização dessa tendência, contudo, requer na sua concepção um ambiente favorável, cuja participação é considerada central, podendo ser responsável pela frustração dessa tendência. Faz parte dessa tendência natural um impulso criativo inato, impulso que requer igualmente um ambiente favorável para se realizar e que, em ausência deste, desaparece.(Winnicott, 2001, 17). A perspectiva vitalista se constitui assim numa caraterística central da concepção winnicottiana, dela derivando importantes diferenças com relação à matriz freudiana. Ë verdade que poderia se afirmar, à luz da segunda teoria pulsional, que também na perspectiva freudiana o vitalismo ocupa um lugar importante. Com essa teoria, com efeito, Freud postula o papel protagônico de forças que concebe como “cósmicas”, e a cujo dinamismo atribui tanto o processo global do cosmos quanto a dinâmica central do psiquismo humano. (Freud, 1986d,135). Para elaborar esta sua segunda teoria sobre as pulsões, Freud tinha recorrido - legitimamente - ao mito e à poesia, dotando-se assim de categorias teóricas que lhe permitissem pensar os fatores emocionais. Onipresentes na sua clínica, estes fatores não podiam ser pensados com o instrumental teórico elaborado por Freud na primeira parte de sua obra. Nesta, como se sabe, a metáfora mecanicista e a perspectiva fisicalista presidiram a elaboração do instrumental teórico. Prisioneiro ainda dos pressupostos centrais do paradigma moderno, incluindo neles a onipresente metáfora mecanicista, Freud tinha elaborado um quadro teórico que, embora permitisse pensar as questões que emergiam da clínica, evidenciou-se crescentemente limitado face à extrema complexidade dos processos psíquicos tornada evidente por essa mesma clínica. Com a segunda teoria pulsional, Freud procurou dotar-se de um instrumental teórico que lhe permitisse pensar o primado dos fatores afetivos nos processos psíquicos, primado que ele sustenta enfaticamente nos seus textos da virada. Esta nova perspectiva, contudo, foi articulada apenas de maneira parcial com o restante do corpo teórico, fazendo com que, mesmo nos textos tardios, a segunda teoria pulsional convivesse com categorias teóricas inspiradas pela antiga perspectiva fisicalista. Por outra parte o “vitalismo” da segunda teoria pulsional é pensado por Freud na perspectiva determinista hegemônica na modernidade, de tal maneira que a dinâmica das “pulsões elementais” independe das vicissitudes da história. Desta perspectiva determinista derivam precisamente algumas concepções centrais de Freud rejeitadas por Winnicott, tais como o caráter inevitável do mal-estar cultural, do sentimento de desamparo e do sentimento de culpa.Voltarei sobre estes temas quando, na última parte deste trabalho, abordarei a posição winnicottiana com relação à pulsão de morte. O vitalismo winnicottiano se insere numa perspectiva completamente diferente. Seu pano de fundo é certamente uma concepção da natureza totalmente alheia à metáfora maquínica e do determinismo, e associada à idéia de criação. Muito antes da feliz formulação de Edgard Morin, Winnicott pensa a relação da cultura com a natureza em termos que se afastam tanto da disjunção quanto da redução. Por outro lado o vitalismo winnicottiano é postulado no bojo de uma reflexão que se mantém colada à experiência clínica e ao que esta permite entrever sobre a experiência da vida e, em particular, dos primórdios da vida emocional. No ponto de partida desta reflexão Winnicott postula sua perspectiva vitalista, pensada como uma tendência inata ao desenvolvimento do indivíduo humano. Partindo de um estado inicial de não-integração (Winnicott, 2000a, 223), esta tendência caminharia, no contexto de um ambiente favorável, para a integração egóica, num processo dinamizado pelo erotismo e a motilidade. Winnicott postula assim a existência de um potencial erótico “localizado em zonas” e ainda a existência de “impulsos que levam o feto a mover-se em vez de ficar quieto” (Winnicott, 2000b, 302), vitalidade dos tecidos que ele considera como os primeiros indícios de erotismo muscular. Designando esse potencial como “força vital”, Winnicott afirma que tanto ele quanto o erotismo são mais ou menos equivalentes em todos os bebês. O que difere em cada indivíduo é a dotação de agressividade, dependendo esta das vicissitudes do relacionamento do bebê com o ambiente. Este ambiente é descoberto e redescoberto a partir da motilidade (Winnicott, 2000b, 297). No processo que Winnicott considera sadio, o contato com o ambiente é uma experiência do indivíduo, este se desenvolvendo desde seu centro (ou cerne). Já em processos geradores de doença, isto é, que interrompem o desenvolvimento emocional cujo ponto culminante é a emergência/criação da singularidade do sujeito, o ambiente se impõe ao indivíduo. Neste caso, ao invés de experiências individuais, tem-se reações à intrusão, cuja culminação será a produção de um self adaptativo ou “falso self”. Na perspectiva winnicottiana, a fusão da motilidade e do erotismo faz parte da tendência natural à integração do ego. Mas esta tendência se atualizará ou não - e em graus diversos - dependendo do comportamento do ambiente, de seu caráter favorável a esse processo ou, pelo contrario, sufocador do mesmo. Nos casos favoráveis, a motilidade se fusionará ao erotismo, dinamizando este e tornando possível um progressivo processo de integração egóica a partir do cerne do indivíduo, potencializando seu impulso criador. O ambiente favorecedor neste caso será aquele que, tornando possível a ilusão de onipotência, favorece a espontaneidade do indivíduo, a progressiva instauração do ego e a mencionada fusão dos componentes da motilidade e do erotismo.(Winnicott, 2000b, 303) A oposição que o ambiente opõe ao indivíduo neste momento só atinge a parte da motilidade não fusionada com o erotismo, não configurando assim uma intrusão. Não há, contudo, nenhum determinismo neste processo de desenvolvimento. Ele não é de modo algum certo. Winnicott adverte inclusive que, mesmo em situações favoráveis, ele permanece incompleto (Winnicott, 2000b, 301). Mas é sobretudo nos casos de um ambiente não favorável que, como conseqüência de um ambiente intrusivo, a fusão dos componentes erótico e de motilidade não se realiza no grau necessário, enfraquecendo a força do erotismo e transformando a motilidade não fusionada em agressividade e auto-agressão. Na hipótese favorável ao desenvolvimento da tendência inata, a fusão do erotismo e da motilidade permitem ao indivíduo começar a existir como tal. Mas é o ambiente favorável que torna possível este desenvolvimento, sendo que na sua ausência, dita tendência não se atualizara. Não há, pois, nenhum determinismo na perspectiva winnicottiana. Ela não supõe a redução da história e da cultura à natureza, mas também não as divorcia. Não convém recorrer, para pensar esta rica e complexa perspectiva, às tradicionais categorias de essência e realização da essência. Muito mais adequada me parece ser a categoria de virtualidade - pensada como linhas de força - e atualização dessa virtualidade, atualização que, quando se verifica, exige sempre ser pensada como criação. (Levy, 1998). Convém repetir: a inserção do homem na natureza não é pensada conforme o modelo de uma essência preexistente que se realiza na história, mas conforme a concepção de linhas de forças, realidades virtuais, que se atualizam na história. O conceito de "verdadeiro self" não supõe então a realização de uma essência pré-existente. Pelo contrário, ele evoca a atualização, pelo sujeito, daquilo que o insere na natureza, isto é das forças vitais que agem nele e que Winnicott denomina de Eros e motilidade. Mas estas forças só se exprimem criativamente - isto é, como processo de auto-criação do sujeito pelo sujeito - no contexto de um "ambiente suficientemente bom". Este ambiente não constitui o sujeito, mais favorece sua auto-criação, permitindo que ele emerja de uma dimensão pré-subjetiva da experiência e da existência. O conceito de "falso self", por sua vez, designa a inviabilização desse processo de auto-criação, pela ação de um ambiente invasivo. Ele constitui assim uma patologia na medida que é fonte de sofrimento. Mas esta patologia não tem como referência qualquer essência natural da qual o sujeito teria se afastado, mas a incapacidade do sujeito se auto-criar conforme a singularidade de seu movimento vital. Daí que a expressão clínica desse sofrimento seja a falta de sentido da existência e o não sentir-se real, como assinala Winnicott reiteradamente. Os ‘textos da virada’ e a originalidade de Winnicott Embora a teoria freudiana mantivesse até nas suas últimas formulações os limites assinalados nos parágrafos precedentes, os elementos centrais dos textos da “virada dos anos vinte” operaram transformações de fundo. Refiro-me à transformação do conceito de inconsciente, pensado na segunda tópica como originário e indissociável do corpo, à afirmação da existência de formas de apreensão e memória inconsciente como fenômeno normal da experiência humana, e à identificação primária, operada por via exclusivamente afetiva, como passo inicial do processo de constituição da subjetividade e, em sentido mais amplo, ao primado da afetividade no processo psíquico. Valendo-se de sua extraordinária experiência clínica, Winnicott elaborou detalhadamente cada um desses conceitos chaves, avançando decididamente no seu nível de compreensão e articulação. Assim, o primado da afetividade enunciado por Freud foi elaborado profundamente na sua concepção de desenvolvimento emocional, a concepção do inconsciente originário indissociável do corpo se exprimiu no estratégico conceito de “psicossoma”, e as experiências de apreensão e registro inconsciente foram desenvolvidas na riquíssima e sutil concepção das relações entre os bebês e suas mães. O conceito de inconsciente é de tal maneira central ao pensamento winnicottiano, que sem ele sua obra não poderia ser compreendida. Na sua própria avaliação, a afirmação da "realidade e força do inconsciente" constitui a maior herança freudiana (Winnicott, 1990, 54). As realidades estudadas e conceitualizadas por Winnicott e referidas à preocupação materna primária, as experiências do bebê nos primeiros momentos da experiência vivência emocional, a apreensão e registro das experiências pré-natais, do parto e imediatamente pós-natais, para citar apenas as mais evidentes, supõem todas elas a ativa participação do psiquismo inconsciente e de suas atividades de apreensão e registro. Tudo isto era muito evidente para Winnicott, para quem a psicanálise tratava do inconsciente e da vida profunda e oculta do indivíduo humano. (Winnicott, 1996, 11) A capacidade de apreensão psíquica e de memória inconsciente constitui de fato uma importante peça na concepção freudiana. Freud não a sustentou como conseqüência de qualquer pressuposto, mas foi forçado a aceitá-la como evidência surgida na sua experiência clínica. No artigo sobre "O Inconsciente", que integra os denominados textos metapsicológicos, Freud afirma sem ambigüidades a existência da comunicação entre inconscientes. (Freud, 1914, 1986, 191) Verificando esta capacidade do inconsciente na sua clínica, Freud explora diversos temas a ela vinculados. Entretanto, será na obra de Winnicott que estes aspectos centrais da virada teórica freudiana - a concepção de um psiquismo inconsciente originário indissociável do corpo e a capacidade de comunicação e apreensão inconsciente - serão plenamente integrados e desenvolvidos. Com efeito, sustentando-se na sua vastíssima experiência clínica com bebês, crianças, adultos e com a psicose, o autor inglês articulou de maneira muito mais profunda esta capacidade do inconsciente, com outra afirmação freudiana fundamental: o primado da afetividade na constituição do psiquismo. Este processo, facilitado ou perturbado pelo ambiente, tem como cerne a apreensão inconsciente do psiquismo do bebê pela mãe e vice versa. Na mãe esta capacidade - designada por Winnicott com o conceito de "preocupação materna primária"- sustentada pelo amor (Winnicott, 1975, 140) origina um conhecimento que "tem de vir de um nível mais profundo, e não necessariamente daquela parte da mente onde há palavras para tudo" (Winnicott, 2002, 53). No bebê, à capacidade de apreender o psiquismo materno é atribuído um papel fundamental no processo de fusão da motilidade e do erotismo, sendo assim crucial para a emergência do verdadeiro self ou do falso self. Conseqüências tão importantes como a emergência do sentimento de ser real, de continuidade da existência ou então de seus percalços, são inteiramente tributários desta apreensão inconsciente por parte do bebê. Não cabe aqui apoiar com citações da obra de Winnicott o afirmado acima. Seria necessário citar praticamente toda a obra do psicanalista inglês. A criatividade e a emergência do ego. A centralidade que Winnicott - seguindo a trilha freudiana - atribui ao inconsciente e à sua força sustenta, assim, os aspectos mais originais e criativos de sua concepção teórica. Assim, é a capacidade de apreensão inconsciente que torna a própria experiência do nascimento significativa para o processo de subjetivação. A experiência clínica permite postular - afirma Winnicott - (Winnicott, 2000d, 254) a existência de fantasias e memórias da experiência do nascimento, tornando possível inclusive evocá-las na ordem seqüencial em que elas foram experimentadas e registradas (Winnicott, 2000d, 275). Estes traços de memória, significativos para o desenvolvimento da vida emocional do bebê, podem ser afirmados -enfatiza Winnicott - a partir da experiência clínica. Freud abordou a questão e sublinhou sua importância, não chegando no entanto a nenhuma conclusão definitiva, porque lhe faltavam dados essenciais para a compreensão da questão.(Winnicott, 2000d, 355). Para Winnicott é importante afirmar que Freud não abordou a questão apenas enquanto pensador intuitivo, mas "como cientista", isto é, a partir da experiência. É o mesmo caminho seguido pelo próprio Winnicott, caminho que, sustentando avanços nos conhecimentos sobre a primeira infância, permite uma compreensão mais rica do processo, levando inclusive a modificar importantes aspectos da teorização freudiana. Segundo Winnicott, a experiência do nascimento não é necessariamente traumática, sendo-o apenas nos casos em que a intrusão do ambiente força uma reação do feto que vai além do nível de reação para o qual ele já estava preparado.(Winnicott, 2000d, 274). O conceito de psicossoma elaborado por Winnicott é central para compreender estes riquíssimos processos. Elaborando a indissociabilidade do corpo e do psiquismo - postulada por Freud na segunda tópica - Winnicott pode afirmar "que o corpo da criança sabe o que significa nascer" (Winnicott, 2000d, 261). ‘Saber do corpo’ que é também expressão inicial do psiquismo na elaboração imaginativa da experiência. Os dados desta experiência são, então, o corpo que sabe e registra, e a capacidade de imaginar e portanto de criar, capacidade que constitui uma caraterística da espécie humana. Esta questão é central. Ela está no cerne da problemática da integração egóica, indissociável da relação que o bebê estabelece com a realidade. A perspectiva teórica A questão da criatividade é então central no pensamento winnicottiano. Ultrapassando a dimensão da criatividade artística, à qual Freud limitara a sua abordagem -(Winnicott, 1975, 100), Winnicott faz dela o cerne da emergência da subjetividade e da singularidade, tornando-a auto-criatividade. Embora cuidadosa, a abordagem winnicottiana caracteriza neste tema uma crítica fundamental à teoria elaborada pela psicanálise ortodoxa. Focalizando exclusivamente a realidade psíquica interna e sua relação com a realidade externa, essa teoria negligenciou a área intermediária onde se processa a criação e a emergência do sentimento de ser. Assim, afirma Winnicott, a experiência cultural não encontrou seu verdadeiro lugar nas teorias psicanalíticas (Winnicott, 1976, 9.) Na sua topologia da mente, continua Winnicott, Freud não encontrou lugar para a experiência das coisas culturais (Winnicott, 1976, 133). A idéia de cultura, em Winnicott, é uma extensão da idéia de fenômenos transicionais e da significação do brincar. Ela supõe a emergência do novo - criação - a base do que já está aí, produto então da ação recíproca entre separação e união (Winnicott, 1976, 138). A experiência cultural se localiza assim no espaço potencial existente entre o indivíduo e o meio ambiente, espaço potencial no qual se experimenta o viver criativo, cuja primeira manifestação é o brincar. Situa-se assim na interseção entre a ausência de percepção do não-eu, próprio do estado de fusão bebê-mãe (meio-ambiente), e o objeto percebido como não-eu. Este espaço é potencial porque, para efetivamente existir, requer que sua emergência seja favorecida pelo "sentimento de confiança" (Winnicott, 1976, 139), sentimento propiciado pela mãe "suficientemente boa". Winnicott sublinha que sua teoria não se contrapõe à teoria estrutural da mente elaborada por Freud na segunda tópica, reiterando assim sua filiação freudiana. Enfatiza, no entanto, que ela modifica nossa compreensão sobre “o que versa a vida” (Winnicott, 1976, 138). Neste ponto é importante assinalar que, se não se contrapõe à teoria freudiana, a teoria winnicottiana enriquece e modifica de maneira profunda a concepção de uma das instâncias dessa tópica: o ego. Com efeito, essa área intermediária é pensada por ele como sendo fundamental para a organização do ego, constituindo um aspecto não fundado no padrão do funcionamento corporal, embora seja fundado em experiências corporais. Esta afirmação é de extrema importância na teoria de Winnicott. Com efeito, definindo estas experiências como não-orgiasticas, e pertencendo à esfera referida à capacidade de relacionamento do ego, ele assinala a existência de uma dimensão da experiência humana diferente daquela caracterizada pela vida pulsional e sua necessidade de satisfação. (Winnicott, 1976, 140). Nesta área intermediária, então, na qual se inaugura a criatividade e o próprio sujeito, a experiência não se refere à satisfação (ou frustração) pulsional, mas a relacionamentos com o objeto, isto é com o outro. A singularidade da subjetividade emerge, assim, de um plano prévio de unidade. Inicialmente experimentado como fusão, esse relacionamento passa a ser posteriormente transicional, tornando possível um processo que permite atingir a percepção do objeto-objetivo, parte da realidade externa compartilhada. Assim, a crítica winnicottiana à teoria ortodoxa denuncia que, limitando-se a considerar a realidade psíquica interna e a realidade externa compartilhada, ignora o espaço intermediário, cenário da transição da experiência de fusão para a experiência de não-fusão, espaço no qual se opera a experiência auto-criativa do sujeito. A mãe, na teoria ortodoxa, é sempre mãe-objeto de satisfação pulsional. Já para Winnicott, é preciso diferenciar essa mãe-objeto da mãe-ambiente. Nesta última condição ela não é objeto das pulsões em busca de satisfação, mas suporte da experiência inaugural da identificação primária, experiência primeira de organização egóica, sem a qual não faz sentido falar de satisfação pulsional. É nesse sentido, creio, que deve-se entender a - para alguns - desconcertante afirmação de Winnicott, segundo a qual não existe Id antes do ego (Winnicott, 1976, 137). Fica assim evidente que, para Winnicott, a criatividade humana não pode ser compreendida como resultado da sublimação da força da pulsão sexual, mas deve ser pensada como expressão da força vital primária, atuante em cada indivíduo sempre que o ambiente favorável o torne possível pela sua confiabilidade. Sendo expressão radical da experiência da singularidade - posto que inclui a auto-criação - a criatividade é ao mesmo tempo fruto da inserção no coletivo. Exemplo emocionante - escreve Winnicott (Winnicott, 1976, 138) - da ação recíproca da separação e da união. A mãe-objeto de identificação. O conceito de espaço transicional, assim como o de fenômenos e objetos transicionais, foi elaborado por Winnicott para dar conta da complexidade dos processos do viver e do adoecer humano, complexidade verificada na sua vasta experiência clínica. Neste contexto ele formula os importantes conceitos de “elemento masculino puro” e de “elemento feminino puro”, ambos presentes em homens e mulheres. O “elemento masculino puro”, o único considerado pela psicanálise ortodoxa, se apoia na pulsão e está vinculado à satisfação. Mantém com o objeto uma relação que pressupõe a separação, isto é, pressupõe um mínimo de organização egóica e a concessão, ao objeto, da qualidade de ser não-eu (Winnicott, 1976, 115). O “elemento feminino puro”, por sua vez, tem a ver não com “ter o seio” mas com “tornar-se o seio”, no sentido do objeto ser o sujeito. Winnicott insiste que não há neste processo nenhuma participação pulsional em busca de satisfação. O seio (ou a mãe) é aqui um objeto-subjetivo (isto é, ainda não é um objeto não-eu), sendo que a experiência abre caminho para a emergência do sujeito objetivo, isto é, a emergência inicial do ego pela via da identificação primária. É essa experiência de identificação com o objeto-subjetivo que permite a emergência do “sentimento de ser”, base para o sentimento do eu. Esta é então uma experiência vital para as posteriores experiências de identificação, sendo a ela que, pensa Winnicott, referia-se Freud ao introduzir o conceito de “identificação primária” (Winnicott, 1976, 114). Este tema fornece um valioso exemplo da fidelidade winnicottiana às grandes intuições freudianas, em particular as contidas nos textos da virada dos anos vinte. O conceito de identificação primária, com efeito, foi formulado por Freud no seu “Psicologia das massas e análise do ego” (Freud, 1921, 1986h, 99). Neste, ele a definia como “direta e imediata” e operando “por via puramente afetiva”, com anterioridade a qualquer diferenciação de objeto. É esta intuição genial - que juntamente com a segunda teoria sobre a angustia, introduz o primado da afetividade na teoria freudiana - que Winnicott desenvolve a partir de sua própria experiência clínica e sua teorização dos espaços intermediários. A identificação primária, propiciada por esse “elemento feminino puro”, exige tão pouca estrutura psíquica - afirma Winnicott - que ela pode acontecer muito cedo, os alicerces podendo ser lançados desde o nascimento, ou mesmo antes. A pouca estrutura psíquica necessária para o processo de identificação primária se prende ao fato de ele operar exclusivamente pela via puramente afetiva. Assim, se, como afirma Winnicott, nas primeiras fases do desenvolvimento emocional do bebê humano o meio ambiente desempenha um papel vital, é através da comunicação afetiva que esse papel é desempenhado. Considerada como aspecto ambiental, a mãe desempenha para o bebê, ainda fusionado com ela, o papel central no processo de identificação primária. Olhando o rosto materno que o olha, aquilo com o que ele (o bebê) se parece, escreve Winnicott, se acha relacionado com o que ela vê. Assim, olhando para o rosto materno, o bebê vê a si mesmo (Winnicott, 1976, 155).Este processo sutil opera no contexto organizado pela preocupação materna primária (Winnicott, 2000c, 399), que torna possível o processo de maturação. Entretanto o rosto materno pode refletir o próprio humor materno, ou a rigidez de suas defesas, fazendo que o bebê não se veja nesse rosto. Neste último caso, a percepção do rosto da mãe toma o lugar da apercepção (ele próprio no rosto da mãe). Frusta-se assim o início do que poderia ter sido uma troca significativa com o mundo, troca na qual, num processo de duas mãos, o auto-enriquecimento (como legítima experiência de onipotência) se alterna com a descoberta do significado no mundo das coisas vistas (Winnicott, 1976, 155). Enxergando no rosto materno os humores da mãe ao invés de sua própria imagem refletida, alguns bebês - escreve Winnicott - passam a estudar as variáveis feições desse rosto, numa tentativa de previsão, sacrificando assim sua espontaneidade. Está já aqui a semente do que Winnicott denominará “falso self”. Por sua vez, o momento inaugural do processo de emergência criativa do "verdadeiro self" acontece a partir do olhar materno que vê o bebê como ele é. A compreensão winnicottiana supõe uma forma de ser singular de cada bebê, que só é perceptível para o olhar amoroso. “Quando olho, sou visto, logo existo”, escreve Winnicott (Winnicott, 1976, 157). E este olhar que o reflete que permite ao bebê iniciar-se como pessoa, passando a olhar criativamente e, progressivamente, a perceber o que, mediado pelas experiências de transicionalidade, chegará a ser o objeto objetivo, isto é, a realidade compartilhada. Ao negligenciar este “elemento feminino puro”, a psicanálise ortodoxa negligenciou também o processo de identificação primária, privando-se assim da possibilidade de pensar a capacidade de ser. O elemento masculino faz, escreve Winnicott, enquanto o elemento feminino é. A frustração relaciona-se com a busca de satisfação pulsional, e os conflitos a ela vinculados foram objeto de importantes elaborações da teoria ortodoxa. A experiência de relacionar-se com a mãe-objeto como objeto subjetivo provoca - quando mal sucedida - não a frustração, mas a mutilação. Suas perturbações não se referem ao funcionamento do psiquismo, mas à sua constituição. Neste ponto, Winnicott sublinha a enorme significação do “fator ambiental”, que neste nível convém denominar de “mãe suficientemente boa” ou “insuficientemente boa”. Neste primeiro nível da experiência, a significação destes conceitos é ainda maior, diz Winnicott (Winnicott, 1976, 116), que nas área comparáveis abrangida pelos termos “objetos transicionais” ou “fenômenos transicionais”. Estes, como se sabe, se referem à capacidade da mãe suficientemente boa de apresentar o mundo ao bebê de tal maneira, que o bebê não tem que saber que o mundo não foi criado por ele. Neste nível mais radical, a mãe suficientemente boa é aquela que fornece ao bebê a possibilidade de achar que o seio (ou ela mesma) é ele. O seio constitui, aqui, o símbolo não do fazer, conclui Winnicott, mas do ser. Assim, a relação de objeto em termos desse “elemento feminino puro” nada tem a ver com a pulsão (Winnicott, 1976, 117). Tem a ver com a questão do ser, única base para a auto-descoberta e para o sentimento de existir. A emergência dos fenômenos e objetos transicionais assinala o momento seguinte no processo de maturação. Winnicott enfatiza que o objeto transicional constitui o primeiro uso de um símbolo pelo bebê (Winnicott, 1976, 134), sendo ao mesmo tempo a primeira experiência do brincar. Símbolo de união do bebê e de sua mãe, localiza-se, na mente do bebê, no espaço e no tempo em que a mãe se acha em transição entre ser percebida como fusionada com o bebê e ser experimentada como objeto (externo) a ser percebido. O objeto e seu uso simbolizam a união de duas coisas - mãe e bebê - agora separados no início de seu estado de separação. Configuram assim, no psiquismo do bebê, a emergência da imagem de um objeto objetivo. Winnicott insiste em dizer que esses fenômenos transicionais não possuem sustentáculo pulsional (Winnicott, 1976, 136). Pertencem à experiência da relação de objeto, e possuem uma variabilidade infinita, em contraste com a relativa estereotipia dos fenômenos relacionados ao funcionamento corporal e à realidade ambiental. Esta experiência se localiza, assim, no espaço potencial existente entre o indivíduo e o meio ambiente. Nesse espaço o amor materno fornece ao bebê o sentimento de confiança no fator ambiental (Winnicott, 1976, 142), confiança que se constitui no fator fundamental para permitir a emergência/criação, pelo indivíduo, de seu verdadeiro self. Convém insistir que na perspectiva winnicottiana o “verdadeiro self” não pode ser pensado como uma essência que precede à existência do indivíduo. Pelo contrário, ele é expressão da auto-criação operada pelo indivíduo no espaço tornado possível por uma provisão ambiental favorável. Ele caracteriza a atualização - que é criação - em indivíduos singulares da espécie humana, das linhas de força que, como virtualidade, caracterizam o que Winnicott denomina “Natureza Humana”. O ambiente favorável - cuja primeira expressão é a mãe suficientemente boa - ao outorgar confiabilidade, torna possível o movimento de maturação que, passando pela fusão da motilidade e do erotismo, dinamiza o viver criativo do sujeito. Em contraste, o falso self é produzido pelo sujeito como resultado de um processo no qual a não confiabilidade materna lhe exige um trabalho de adaptação, no qual a preservação do existir exige o sacrifício do viver criativo. Caracteriza um estado de submissão que configura uma base doentia para a vida (Winnicott, 1975, 95). O meio ambiente possui, na perspectiva winnicottiana, a função decisiva de favorecer (ou sufocar) um processo de maturação que é natural como expressão do impulso vital. Para Winnicott, é precisamente na compreensão deste impulso criativo que a psicanálise ortodoxa perdeu o principal (Winnicott, 1976, 100). Não se trata obviamente de explicar esse impulso, mas de estabelecer o vínculo entre o viver criativo e o viver propriamente dito, que é diferente do simples existir. Para Winnicott é possível - e fundamental - estudar as causas da perda desse viver criativo, isto é, compreender porque para alguns indivíduos desaparece o sentimento de que a vida é real ou significativa (Winnicott, 1975, 101). Nesta perspectiva, a criatividade impregna toda a atitude do sujeito com relação à realidade externa, e faz com que, quando o processo é bem sucedido, o indivíduo sinta que a vida é digna de ser vivida. Em contraste, um relacionamento de submissão - isto é, não criativo - com a realidade externa, provoca um sentimento de inutilidade, associada à idéia de que nada importa e de que não vale a pena viver a vida. (Winnicott, 1975, 95). A teorização winnicottiana oferece, como se vê, uma perspectiva radicalmente inovadora para pensar a emergência da subjetividade, tornando mais complexa a compreensão do sofrimento psíquico. Nesta perspectiva, vários e importantes temas da teoria psicanalítica são pensados de maneira diferente e, por vezes, oposta à perspectiva freudiana. Dentre essas questões, privilegiaremos a seguir, mesmo que brevemente, a discussão da questão da pulsão de morte, do sentimento de culpa e da emergência do sentimento ético. Na análise destas questões, como se verá, é fundamental considerar a orientação vitalista, acima discutida, da concepção winnicottiana. A agressividade e a pulsão de morte. Winnicott discorda de Freud neste aspecto central.. Na sua opinião, ao se defrontarem com a questão da agressão e das fantasias agressivas, tanto Freud quanto Klein evitaram aprofundar a questão, refugiando-se na hereditariedade, isto é, na existência de uma pulsão de morte, pulsão que, acredita ele, pode ser descrita como uma reafirmação do princípio do pecado original. Assim procedendo, pensa, Freud e Klein evitaram a implicação plena da problemática da dependência, e portanto do fator ambiental (Winnicott, 1975, 102). Convém aprofundar o que está implicado nesta divergência teórica fundamental. A primeira questão a considerar se refere ao processo de construção teórica do próprio conceito “pulsão de morte”. Tanto a abordagem freudiano-kleiniana quanto a winnicottiana partem de uma constatação clínica: a enorme significância dos sentimentos agressivos nos processos psíquicos. A partir dessa constatação, Freud postula a segunda teoria pulsional, na qual Eros e Destruição exprimem na natureza humana uma dinâmica central na natureza, dinâmica representada no mundo físico pelos princípios de atração e repulsão . A postulação freudiana adota inequivocamente uma perspectiva determinista (Winnicott, 1983a, 20), na qual um dado fundamental da essência da natureza humana, imodificável, estabelece limites à criatividade cultural, tornando inevitável o sentimento de culpa e o mal-estar (Freud, 1930, 1986d, 111). Winnicott chama a atenção para o fato de Freud ter simplificado deliberadamente o problema, lidando com a natureza humana apenas em termos de economia , descuidando a análise dos riquíssimos processos envolvidos nos primeiros estágios do desenvolvimento emocional primitivo, antes portanto da consolidação da integração egóica e do posterior ingresso da criança, como pessoa total, na relação triangular. Na ótica winnicottiana, dita redução não é pertinente. Ele pensa que nos estágios iniciais do lactante, este e os cuidados maternos pertencem um ao outro e não podem ser separados (Winnicott, 1983b, 40). No mesmo sentido, afirma que a história de um bebê não pode ser escrita apenas em termos do bebê. Tem de ser escrita em termos da provisão ambiental que atende à dependência, ou que nisso fracassa (Winnicott, 1975, 102). O fulcro de sua análise é, então, o estágio inicial da vida do lactante, período do desenvolvimento do ego cujo aspecto mais importante é a integração do lactante como pessoa total (Winnicott, 1983b, 41). A seu ver, o estudo dos estágios primitivos do desenvolvimento emocional, estudo possível através não apenas da observação de bebês mas principalmente através da análise de crianças e adultos, permite uma abordagem muito mais rica e pertinente da origem da concernimento e da capacidade para o sentimento de culpa (Winnicott, 1983a, 26). Se a sociedade se encontra em perigo, escreve Winnicott, “não é por causa da agressividade dos homens, mas em conseqüência da repressão da agressividade pessoal nos indivíduos” (Winnicott, 2000b, 288). Esta afirmação contém o núcleo da concepção winnicottiana, concepção frontalmente oposta à elaborada por Hobbes (Hobbes, 1651, 1974) no alvorecer do pensamento político moderno, e encampada explicitamente por Freud (Freud, 1930, 1986d, 108).Esta concepção de Winnicott é rica em conseqüências. Ela não nega a existência da destrutividade no homem , que considera parte da natureza humana (Winnicott, 1963, 1983, 96 ). Entretanto, e coerente com a sua concepção de que a constituição da subjetividade humana é indissociável do ambiente, postula que num ambiente "suficientemente bom" essa destrutividade natural pode se transformar - através da emergência da capacidade de sentir culpa e responsabilidade pessoal - em atividade e criatividade, incluindo nesta a emergência de um sentimento moral inato. Na sua ótica, então, o sentimento de culpa não constitui uma decorrência inevitável da ação de forças contraditórias que, constituindo a base pulsional do psiquismo, determinaria os limites da auto-criação do sujeito. Ele não nega certamente a existência, em todo ser humano de uma tendência no sentido de desenvolver o sentimento de culpa.(Winnicott, 1958, 1983a, 28), mas afirma que o conhecimento do processo emocional primitivo e suas possíveis vicissitudes permite pensar o sentimento de culpa não como uma fatalidade determinada por forças naturais, situadas fora da história, mas como uma capacidade de importar-se com o outro, capacidade que, em ambiente favorável, fornece as bases para sentimentos e ações sociais. Neste processo, Eros não é apenas um movimento espontâneo para o objeto, movimento que ao ser simultâneo com a agressividade origina o sentimento de culpa. Manifestando-se também através do amor materno, que sustenta a preocupação materna primária e com ela a maternagem suficientemente boa, Eros se constitui na condição para o que Winnicott denomina desenvolvimento emocional saudável. Ele é então decisivo não apenas para o processo de emergência da subjetividade, mas também para o seu destino. Esse processo de fusão, contudo, pode ser dificultado ou impedido por uma intrusão excessiva do ambiente. A intrusão exige do bebê a utilização de sua força vital para reagir a ela, substituindo a dinâmica espontânea que sustenta a fusão e a criatividade pela reação, iniciando um processo que culmina com a produção do “falso self”. A insuficiência ou ausência de fusão da motilidade com o erotismo faz com que a experiência de satisfação passe a depender da oposição encontrada pelos impulsos agressivos não fusionados, fazendo com que as experiências agressivas sejam sentidas como muito mais reais que as experiências eróticas também não fusionadas. Neste caso, o processo de fusão -que Winnicott denomina de falso - pode ainda se realizar . O bebê passará então a esperar a perseguição, pois é reagindo a ela que se sentirá real. Nestes casos, pode se dizer que o masoquismo é primário, permitindo compreender a gênese de uma modalidade de paranóia anterior à produzida no contexto do drama edipiano. Mas contrariamente à tese freudiana posterior à formulação da pulsão de morte (Freud, 1924, 1986i) e de acordo com a etapa anterior da teorização freudiana, Winnicott afirma que no desenvolvimento emocional saudável o sadismo é primário com relação ao masoquismo (Winnicott, 2000b, 304). A agressividade faz parte do amor primitivo. Nesse estágio existe um "propósito", mas devido ao fato de o bebê não ter ainda atingido o estágio de integração egóica, ele não se sente concernido pelo resultado de seus impulsos destrutivos. Não se percebendo como um eu, ele não pode conceber a figura materna como uma pessoa total. A mãe-objeto, alvo dos impulsos destrutivos, não é associada à mãe-ambiente, provedora de conforto e proteção Assim, o que ele "destrói" quando excitado não é associado ao que valoriza nos momentos calmos. Posteriormente, na continuidade do processo emocional primitivo, quando o grau de integração egóica atingido permite ao bebê perceber a figura materna como pessoa total, ele passa a ter o sentimento de concernimento quanto ao resultado dos impulsos de seu amor primitivo, isto é, de suas experiências físicas e ideativas. Adquire assim a capacidade de sentir culpa. Na saúde, contudo, isto é, no contexto de um ambiente favorável, ela se torna igualmente capaz de descobrir um anseio por dar, construir e reparar. Boa parte da agressividade se transforma, assim, em funções sociais, manifestando-se como tal. Mas se a tentativa de reparação não é reconhecida pelo ambiente, dita transformação não realiza, e a agressividade reaparece. Na concepção winnicottiana, a questão do sentimento de culpa não deve ser considerada separada da questão da emergência do sentimento moral. Na sua perspectiva, não é necessário que o sentimento moral seja inculcado, pois este emerge espontaneamente quando existe um ambiente favorável (Winnicott, 1958, 1983a, 19). Com esta afirmação, Winnicott adota uma posição teórica diferente da sustentada por Freud no "O mal-estar na cultura". Como se sabe, Freud afirma nessa obra que é licito "desautorizar a existência de uma capacidade originária de diferenciar o bem do mal". (Freud, 1930, 1986d, 120). Entretanto, se a posição teórica é diferente, ela não é oposta à de Freud. Este se refere a inexistência de uma capacidade inata de diferenciar o bem do mal como conceitos opostos, atribuindo o advento dessa capacidade no bebê à compreensão, por este, da aprovação ou desaprovação de seus atos por seus cuidadores, bem como das conseqüências possíveis dessa aprovação ou desaprovação. Como se verá, Winnicott considera de grande importância este processo, sem lhe atribuir, no entanto, o estabelecimento do sentimento moral no psiquismo. A emergência espontânea do sentimento moral a que se refere Winnicott não caracteriza um processo intelectual mas afetivo, decorrente do movimento erótico de que o bebê se torna capaz quando conquista a integração egóica. A emergência do sentimento moral inato é indissociável da constatação de um impulso natural à reparação (Winnicott, 1958, 1983a, 26), impulso que surge quando o nível de integração egóica atingido permite perceber a mãe como pessoa total, fazendo com que o bebê se sinta responsável pelo resultado de seus impulsos destrutivos. Mas tanto o sentimento moral inato quanto o impulso a reparar não podem ser concebidos fora do contexto do ambiente em relação com o qual o ego do bebê se constitui. Num ambiente favorável, forma-se o que Winnicott denomina "círculo benigno" (Winnicott, 1958, 1983a, 27) , que pode se transformar em "círculo maligno" em um ambiente desfavorável. No primeiro caso, a experiência do impulso destrutivo associado ao amor primitivo leva à aceitação da responsabilidade que denominamos culpa, e desta, pela intervenção de um gesto de reparação, ‘à tolerância da ambivalência’ (Winnicott, 1958, 1983ª, 24, 26 e 28) e ao concernimento. Nesta perspectiva, repare-se, contrariamente à teorização freudiana, a ambivalência afetiva não é originária, transposição direta das pulsões elementares, mas emerge com a integração do ego. Sua emergência tem assim mais a ver com mudanças no ego do bebê que com o desenvolvimento do Id (Winnicott, 1990, 60). No caso contrário, quando o ambiente falha, a capacidade para sentir culpa não é desenvolvida ou é perdida, e outras formas de defesa se instalam, seja a inibição do instinto, acompanhada de uma ansiedade bruta, ou o splitting dos objetos em bons e maus. O ambiente é, assim, fundamental para a emergência do sentimento de culpa, para sua transformação em capacidade para o concernimento, e para a conquista da capacidade de tolerar a ambivalência. No processo de maturação, ao tornar-se progressivamente independente com relação ao ego auxiliar da mãe, passando também progressivamente da não integração à integração, emergem para o bebê um eu e um não-eu. Surge portanto um interior e um exterior, tornando a vida psíquica uma realidade para o lactante, que sente a riqueza que existe dentro de seu self. Essa riqueza inclui a experiência simultânea do ódio e do amor, que pode levar à emergência da ambivalência e à sua aceitação, assim como ao surgimento do concernimento. Este surge, então, quando no psiquismo do lactente a mãe se torna uma pessoa total, juntando nela a mãe objeto e a mãe ambiente, antes dissociadas (Winnicott, 1963, 1983, 72). Para atingir este estágio, contudo, é preciso que a mãe-objeto, alvo da destrutividade impiedosa que integra o amor primitivo, sobreviva a esses ataques, e que a mãe-ambiente possua empatia suficiente para receber o gesto espontâneo de reparação esboçado pelo bebê e se alegre com isso ( Winnicott, 1963, 1983, 73). A sobrevivência da mãe e de sua capacidade de favorecer e acolher o gesto reparador do bebê faz surgir, neste, a confiança na possibilidade de poder contribuir, tornando-o capaz de tolerar a ansiedade. Ao mesmo tempo torna ao bebê cada vez mais audaz na experimentação de seus impulsos instintivos, podendo-se dizer que a experiência contribui para liberá-los (Winnnicott, 1963, 1983, 73). No caso contrário, o indivíduo pode ter seriamente afetada sua capacidade de se dirigir para o objeto, assim como de estabelecer laços afetivos. A oportunidade de contribuir, fornecida pelo ambiente, permite à criança transformar o sentimento de culpa em capacidade para o concernimento. É importante sublinhar que esta capacidade para o concernimento faz parte da experiência de relacionamento entre duas pessoas totais, mas é anterior ao período do Édipo clássico (Winnicott, 1963, 1983, 77). As perturbações eventuais que surgem do fracasso desse processo diferem também das conseqüências dos avatares do drama edipiano. O fracasso do ambiente, seja da mãe-objeto para sobreviver ou da mãe-ambiente para favorecer e acolher o gesto reparador, leva à perda ou à não obtenção da capacidade para o concernimento. Nesse caso, a ansiedade que toma conta do bebê não é ansiedade de castração ou separação, mas ansiedade de aniquilamento. Uma importante conseqüência da concepção Winnicottiana sobre o sentimento de culpa, a capacidade para o concernimento e a conquista da capacidade de suportar a ambivalência afetiva, reside no questionamento da tese freudiana da universalidade do desamparo. Trata-se de uma questão central, indissociável da concepção sobre a constituição da subjetividade e sobre o processo criativo. Como sabemos, o cerne da crítica que Winnicott faz à psicanálise ortodoxa é a ignorância, por esta, do espaço potencial, intermediário entre a pulsão e os objetos, onde tem lugar a emergência do ego e a experiência da criatividade. No contexto da psicanálise ortodoxa, a criatividade é atribuída ao impacto de um movimento pulsional que, ultrapassando os limites do quadro simbólico estabelecido, exerce sobre ele uma ação disruptiva ensejando a emergência do novo. Nesta perspectiva, o processo de criação é pensado desconsiderando o papel que deve ser atribuído a Eros e ao exercício da imaginação radical dos sujeitos. Na ótica winnicottiana, a compreensão do processo de criação é mais complexa. Como já foi indicado, o autor inglês considera ser a fantasia - que ele diferencia do devaneio - mais primária que a realidade, constituindo a capacidade inata de imaginar um dado antropológico. Essa criatividade, contudo, tem como condição de possibilidade a presença da mãe suficientemente boa, a quem o amor permite ter uma compreensão de seu bebê capaz de tornar possível a ilusão de onipotência criativa. A partir desta posição, quando confrontado com as progressivas falhas do ambiente e os limites que estas caracterizam, o bebê criará, com os objetos intermediários, os primeiros símbolos e os primeiros usos destes. É, pois, a postulação desse espaço intermediário que permite a Winnicott pensar não apenas a emergência do sujeito de maneira indissociável com o ambiente, como o papel da fantasia e do amor no processo de criação e na emergência da realidade simbólica. Repare-se que com esta abordagem - largamente inspirada na sua experiência clínica - Winnicott pode pensar a emergência do sujeito salientando sua singularidade e auto-criação, sem no entanto dissociá-lo do ambiente onde esse processo se torna possível. A criatividade não é então pensada em termos de excesso pulsional, mas como resultado de um complexo processo onde a força vital do indivíduo, exprimindo-se através do impulso erótico e do impulso destrutivo, torna possível a integração do sujeito e, pela fusão pulsional e o espontâneo reconhecimento da alteridade, põe em marcha a potência de auto-criação e criação. Para o autor inglês, da mesma maneira que a emergência da singularidade do sujeito não pode ser pensada sem sua inserção num ambiente favorável, questionando assim o caráter inevitável do confronto entre o indivíduo e a sociedade, as pulsões elementares não são necessariamente inconciliáveis, podendo articular-se - no contexto de um ambiente favorável - numa experiência criativa. Para Winnicott o dado universal não é então o desamparo, mas a dependência inicialmente absoluta, capaz no entanto de se transformar em relativa e posteriormente em independência, fruto este da auto-criatividade e fonte de criatividade. A abordagem Winnicottiana não oferece apenas uma compreensão mais rica da criatividade, compreensão que, ultrapassando as limitações da metáfora maquínica, é mais adequada para pensar a complexidade da vida. Ela permite ainda estender a compreensão da potência criativa para além dos limites permitidos pelo determinismo. Como se viu, esta é uma das críticas de Winnicott a Freud, formulada no contexto da polêmica sobre a pulsão de morte, ao sublinhar o determinismo presente na construção desse conceito na obra freudiana. A significação do movimento teórico winnicottiano - é importante insistir neste ponto - deriva do fato de o autor inglês romper com o determinismo moderno, ultrapassando ao mesmo tempo o dualismo entre natureza e cultura. Trata-se de uma questão relevante, na medida que a crítica do dualismo cartesiano deriva com freqüência não na sua superação, mas na sua supressão. Neste caso o “pólo” psíquico é postulado como derivado do corporal, o psiquismo sendo assim confundido com o cérebro. Na perspectiva winnicottiana, como se viu, tanto o corpo e seus instintos quanto a capacidade de elaborar imaginariamente a experiência - inicialmente com as funções fisiológicas e os relacionamentos primários, são postulados como dados no homem. A concepção winnicottiana da emergência da vida e do psiquismo é, como se viu, vitalista. É ao impulso da vida que ele refere algumas tendências fundamentais: a integração egóica, a fusão pulsional, a dinâmica erótica, a tendência à reparação, a criatividade. Entretanto, não há nessas tendências nenhuma determinação, apenas linhas de força virtuais cuja atualização é constitutivamente mediada pelo ambiente. Creio que é pertinente dizer que, assim como para Bérgson, também para Winnicott a criatividade não pode ser divorciada da dinâmica da natureza, natureza que não tem um fim teleológico, mas tem uma finalidade, que pode ser nomeada como a tendência para preservar e diferenciar a vida (Bergson, 1930, 2000). Como já foi assinalado, Winnicott afirma a existência de uma capacidade espontânea na criança para desenvolver um senso moral, experimentar sentimento de culpa e forjar um ideal (Winnicott, 1963, 1983, 88). Trata-se, na sua concepção, de sentimentos que amadurecem na vida emocional do bebê quando um ambiente favorável o permite. Não se trata obviamente de conceitos nem de representações, mas de sentimentos. A base para sua emergência espontânea é a confiabilidade do ambiente, confiabilidade que se desenvolve como uma “crença em”. A emergência dessa moralidade inata é fundamental para a posterior incorporação dos códigos éticos do ambiente. Negar essa base através de um comportamento excessivamente intrusivo do ambiente significa, na concepção de Winnicott, esvaziar o indivíduo de um importante aspecto da criatividade, ao mesmo tempo que privam os códigos morais introjetados de uma base genuína. Winnicott enfatiza que todos estes processos são anteriores às possibilidades de qualquer comunicação verbal, e diz ainda que, nesse processo, o fator pessoal, interno, é mais importante que o externo e o ambiental em termos de aprovação ou desaprovação. Esta afirmação não diminui a importância do ambiente, mas muda radicalmente a concepção da natureza de sua intervenção. Para Winnicott esta não deve ser impositiva - aprovando ou desaprovando o agir do bebê - mas favorecedora, permitindo a emergência do que no bebê é espontâneo. A educação moral, escreve Winnicott, não é substituto para o amor (Winnicott, 1963, 1983, 94). Considerações finais. Afirmei, ao iniciar este trabalho, que a filiação freudiana da teoria winnicottiana parecia-me inquestionável. Esta filiação se exprime na concepção do psiquismo inconsciente postulada por Winnicott, que enriquece, a partir de uma vasta experiência clínica, a concepção - formulada por Freud - do inconsciente como constituindo o psiquismo genuíno. A experiência winnicottiana no trabalho clínico com bebês e crianças tornou possível, com efeito, compreender o relacionamento materno-infantil e suas conseqüências fundamentais a partir do encontro de dois inconscientes e de seus modos de interação mutua. A adesão winnicottiana ao primado da afetividade formulado por Freud na última parte de sua obra caracteriza outra importante vertente da referida filiação. Também aqui a experiência clínica de Winnicott lhe permitiu enriquecer enormemente esta fundamental concepção freudiana, enriquecimento contido na sua original concepção sobre o desenvolvimento emocional primitivo. O mesmo pode ser dito da adesão winnicottiana à concepção freudiana da constituição da subjetividade no contexto da identificação primária. Freud apontou para a realidade e a força do inconsciente, escreve Winnicott, chegando à dor, à angustia e ao conflito que invariavelmente se encontram na raiz da formação de sintomas. Ele anunciou publicamente a importância dos instintos e o caráter significativo da sexualidade infantil. Qualquer teoria que negue ou ignore estas questões, acrescenta ele, é inútil (Winnicott, 1990, 54). Não poderia ele exprimir de maneira mais clara sua filiação freudiana. Isto não impede, é obvio, que a partir da originalidade de seu ponto de vista, considerado acima, a contribuição winnicottiana não seja original, levando em parte a complementar a abordagem freudiana e em parte a divergir abertamente em algumas questões importantes, conforme foi examinado acima. No que se refere ao papel do drama edipiano no processo psíquico, a relação é de complementação. A teorização freudiana das relações entre três pessoas totais, relações que caracterizam o cenário edipiano, é encampada como essencial por Winnicott. A complementaridade, neste caso, reside na elaboração teórica do período precedente, ao final do qual o processo de integração vivenciado pelo bebê torna possível o relacionamento dual entre pessoas totais. È neste período, e no contexto das singulares modalidades de relações que se estabelecem entre essas duas pessoas, que se constitui para Winnicott o cenário de emergência da subjetividade. Assim, na perspectiva winnicottiana, a experiência edipiana não é constitutiva da subjetividade. Mas é bom lembrar que também não o era para Freud. Para este, com efeito, “cada ser humano que nasce deve enfrentar a tarefa de dominar o complexo de Édipo”, acrescentando que “quem não puder resolvê-la, cai na neuroses” (Freud, 1905, 1987, 206). A própria centralidade do complexo de castração, fulcro da experiência edipiana, se por um lado foi postulada ao afirmar que dito complexo constituía o complexo nuclear das psiconeuroses, foi por outro relativizada pelo próprio Freud, invocando para isso a insuficiência do conhecimento sobre esse campo (Freud, 1914, 1986j, 89-90). Esta prudência do fundador da psicanálise pode ser atribuída à sua progressiva compreensão da importância das experiências pré-edípicas, compreensão que o levara a sublinhar a necessidade de atentar para a existência de processos defensivos diferentes e anteriores ao recalque, lamentando ter abandonado o conceito de defesa em benefício do conceito de recalque, referido ao drama edipiano (Freud, 1926,1986e). A teoria winnicottiana complementa a de Freud, incorporando a compreensão dos processos de constituição egóica. Superando os estreitos limites de uma abordagem que pensava o processo psíquico através do relacionamento conflitivo entre o pólo pulsional e a cultura na qual o indivíduo deveria se inserir, Winnicott torna evidente a participação decisiva do espaço intermediário, cenário da integração egóica e portanto da constituição subjetiva, sublinhando a natureza criativa deste processo. Chamando a atenção para a centralidade do papel materno não apenas como objeto das pulsões atuantes no bebê mas também como mãe ambiente, suporte da experiência da identificação primária, o autor inglês torna evidentes a significação e singularidade dos percalços da vida psíquica nesses momentos iniciais da vida psíquica, chamando a atenção para experiências de mutilação egóica que é preciso não confundir com experiências de frustração pulsional. A originalidade da contribuição winnicottiana se sustenta no aprofundamento dos conhecimentos da primeira infância, quando a criança é um “infans”, isto é alguém que ainda não fala. Winnicott considera que Freud negligenciou este período da vida, embora tenha assinalado, em uma nota de rodapé a seu importante trabalho sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, (Freud, 1911, 1986, 225) que a vigência absoluta do princípio de prazer na experiência do bebê seria inimaginável se não existissem, na vida do lactente e de maneira indissociável com ela, os cuidados maternos. Na perspectiva de Winnicott, Freud entreviu a significação do ambiente como possibilitador da experiência onipotente do bebê, fonte de sua criatividade, mas não teve condições para discernir as implicações desta compreensão (Winnicott, 1983, 400). A originalidade da abordagem winnicottiana se desdobra na criatividade da prática clínica que ela sustenta. Fazendo da confiabilidade do ambiente um aspecto central do processo de emergência da subjetividade, e pensando esta como atualização de tendências espontâneas atuantes em cada indivíduo, a clínica winnicottiana privilegia no relacionamento analítico a dimensão do acolhimento ou holding. Esta dimensão não exclui a atitude de oposição ou limite, que integra também a experiência de uma maternagem suficientemente boa. Todavia, e particularmente nos períodos em que lida com perturbações cujas raízes se situam no processo de integração egóica e suas vicissitudes, o eixo da estratégia clínica não é de corte mas de acolhimento. Neste contexto, onde o objetivo procurado é a emergência, no paciente, da experiência da confiabilidade, a consistência do analista pode ser mais relevante que suas interpretações. E o impacto destas, sua capacidade mutativa, deriva mais da sua capacidade de mostrar ao paciente que ele é compreendido - isto é, enxergado - que do conteúdo da interpretação. Permanentemente inspirada pela experiência clínica, a abordagem winnicottiana acolhe a complexidade do homem e da vida. Ultrapassando os estreitos limites impostos pelas metáfora maquínica, herança da modernidade pela qual os fenômenos da vida foram abordados com métodos elaborados para estudar o mundo da matéria, Winnicott supera diversas perspectivas reducionistas. Pensando o homem na sua integração com a natureza, e enfatizando ao mesmo tempo sua dimensão criativa, se afasta tanto do reducionismo determinista quanto da perspectiva da disjunção. Nem apenas ser de pulsão, nem apenas ser de linguagem, mas ser de imaginação radical, de sentimento, de pulsão e de linguagem. No homem pensado por Winnicott a criatividade humana é indissociável de todos esses aspectos, e igualmente indissociável do ambiente que permite sua atualização ou provoca sua frustração. Afastando decididamente a psicanálise dos estreitos limites caracterizados pelo paradigma moderno de conhecimento, no seio do qual emergira, a abordagem winnicottiana avança na direção apontada pelo gênio de Freud, recolhendo assim o melhor da herança do fundador da psicanálise.
Bibliografia BERGSON, H. "Les deux sources de la morale et de la religion" (1930), PUF, Paris, 2000, A fidelidade do pensamento winnicottiano à matriz freudiana se fundamenta na comum consideração da experiência clínica como fonte fundamental do saber produzido pela psicanálise. A disparidade dessas experiências, contudo, assim como o maior afastamento por parte de Winnicott de importantes postulados do paradigma hegemônico na modernidade, sustenta as importantes divergências teóricas entre ambos autores. Para dar apenas dois exemplos: a rica problemática da identificação primária e da comunicação entre inconscientes. Postulados por Freud, estes conceitos fundamentais são amplamente desenvolvidos pela concepção winnicottiana das relações mães-bebês, pelo conceito de "preocupação materna primária" e por outros vinculados à problemática do desenvolvimento emocional primitivo. A criatividade do pensamento winnicottiano se insere assim no processo que W. James caracteriza como "experiência", um "meio termo entre a certeza absoluta e a dúvida total, igualmente estéreis.” É digno de nota que para o fundador da psicanálise, se a agressão constitui o pano de fundo de todos os vínculos de amor e de ternura entre os seres humanos, haveria uma possível exceção no laço que une a figura materna com seus filhos homens. Esta curiosa exceção pode constituir uma pista para compreender as dificuldades pessoais de Freud para pensar o estágio pré-edipiano. Discuti detalhadamente esta questão no meu artigo "Como pensar o conceito de pulsão hoje?" (Plastino, 2002). "Encontro-me na necessidade de admitir -escreve Winnicott- a existência de uma agressividade primária e um impulso destrutivo, que é indistinguível do amor instintivo, apropriado ao estágio muito precoce do desenvolvimento do bebê". (Winnicott, 1990,99 ). |
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