PSICOTERAPIA E JUSTIÇA SOCIAL

Davy Bogomoletz
30/09/2000

A célebre antropóloga Ruth Benedict, em seu livro “O Crisântemo e a Espada”, fez uma comparação muito interessante entre a Civilização Ocidental, representada pelos Estados Unidos, e a Civilização Oriental, representada pelo Japão de antes da Segunda Guerra. Benedict percebeu, e seu livro é uma tentativa de demonstrar essas proposição, que as duas civilizações tinham, como eixo central de seus processos de socialização, dois fenômenos psicológicos bem distintos. Nos Estados Unidos, diz a autora, o processo de socialização gira em torno do sentimento de culpa, enquanto no Japão o eixo desse processo é o sentimento de vergonha. Assim, propõe ela, haveria uma Civilização da Vergonha e uma Civilização da Culpa, e esse seria um dos motivos para as gritantes e por vezes muito estranhas diferenças entre esses dois mundos.

A culpa difere da vergonha por ser um fenômeno no qual a autoridade está introjetada. Para o ocidental, diz Benedict, ninguém precisa saber do seu ato anti-social: o próprio cidadão se encarrega de sentir-se culpado, e por isso evita tanto quanto pode fazer coisas que o levariam a sentir-se culpado. Já para o homem oriental, é preciso que alguém descubra o seu gesto, pois no caso de este passar desapercebido, o seu autor não sentirá qualquer desconforto – a não ser o medo de vir a ser descoberto. Para efeitos da vida em sociedade, o medo à vergonha funciona tão bem quanto a culpa: são ambos fortíssimos determinantes do que costumamos chamar de “bom comportamento”.

A meu ver, porém, nos dois tipos de sociedade funciona um único paradigma social: o Paradigma de Hobbes, segundo o qual o Homem é o Lobo do Homem, e somente a consciência dos perigos desse aparente fato e o receio das conseqüências desses impulsos animais é que levam os homens a assinar o que esse autor chamou de “pacto social”, pelo qual todos passam a obedecer às mesmas leis que impedem (ou tentam impedir) o funcionamento do paradigma. Cada sociedade, então, se estrutura de acordo com seu próprio pacto social, e os filhos dos membros dessa sociedade são educados no sentido da obediência a esse princípio social básico.

Benedict, em seu fascinante livro, conta vários detalhes sobre os métodos educacionais nas duas sociedades, e é óbvio que as várias religiões desempenham nessa educação uma função primordial.

No entanto, a meu ver há um problema básico nisso tudo: tanto a culpa quanto a vergonha são sentimentos que podemos chamar de negativos, ou seja, são sentimentos que provocam desconforto e dor em quem os sente.

Conforme sabemos, tanto a psicanálise de Freud quanto a de Melanie Klein têm como base os sentimentos de medo e culpa. Apesar das diferenças entre as proposições desses dois fundadores da psicanálise, numa coisa eles concordam: o homem é um animal que nasce essencialmente mau, embora seja possível educá-lo. Ou seja, sua essência é má, no sentido de que o bem estar do outro só passará a interessá-lo depois do processo de socialização. Essa visão de mundo da psicanálise clássica traduziu-se num modelo de psicoterapia onde o paciente era visto, primordialmente, como um bicho um tanto perigoso e repleto de impulsos socialmente condenáveis. Seu grande objetivo: ter tudo para si e não deixar nada para os outros. Sua única chance: sentir-se culpado por esses impulsos e torná-los ego-distônicos, ou seja, fazer com que o homem, para tornar-se amigos dos outros, se tornasse inimigo de si mesmo.

Eu, pessoalmente, passei por uma experiência desse tipo, com uma analista kleiniana que tentou o mais que pôde fazer-me sentir vergonha de mim mesmo e culpado por minhas intenções ilegítimas. O que ela não entendia era que uma boa parte de minha doença consistia justamente nisso, em eu me envergonhar de quem era e sentir uma culpa imensa pelo que se passava dentro de mim. Posso dizer tranqüilamente que fugi de lá a tempo de procurar outra análise, outro tipo de paradigma (na época eu não sabia disso), e felizmente encontrei, e por isso estou aqui.

O outro paradigma social é o de Winnicott. Para ele, Rousseau tem mais razão que Hobbes, embora não se possa dizer que Winnicott também achava que “o homem nasce bom”. Mas não tinha dúvidas de que é a “sociedade que o corrompe”, como dizia o filósofo francês. Pois o homem, para Winnicott, não nasce bom nem mau, apenas nasce, e por estar vivo, sente o impulso inevitável de alimentar-se, e é esse impulso, por sua carga energética, que acaba sendo qualificado pela sociedade (representada, na ocasião, pela mãe) como “mau”, “destrutivo”. Winnicott demonstrou, portanto, que o que não passa de apetite tornou-se a “prova” de que o homem nasce “mau”. Sendo, além de psicanalista, pediatra, foi lhe possível observar milhares de bebês junto com suas mães, coisa que nenhum psicanalista antes dele havia feito, e assim tornou-se claro para ele que era A MÃE quem definia a qualidade do gesto do bebê, gesto que ele próprio chamou de espontâneo, em vez de agresivo.

Por essa mesma linha de raciocínio, ficou claro para ele que tanto Freud quanto Klein erraram ao interpretar a passagem do bebê humano do assim chamado ‘reino da natureza’, onde vigoram os impulsos biológicos, animais, para o ‘reino da cultura’, onde surgem os comportamentos propriamente humanos, isto é, a solidariedade, a empatia, o amor. E também a culpa e a prima da culpa, a vergonha. Para ele, esses comportamentos surgiam graças a uma capacidade inata do bebê, capacidade essa que entrará em funcionamento caso o ambiente em que ele é criado o permita. Em suma, Winnicott diz que não é preciso “educar” o bebê, basta cuidar dele adequadamente para que o princípio de socialização surja nele espontaneamente. Ele chamou a esse fenômeno de concern, palavra inglesa de difícil tradução que significa ‘consideração’, ‘interesse’, no sentido de desejar o bem do outro. Winnicott diz, explicitamente, que o concern é o avesso da culpa, ou seja, que a culpa é o negativo do concern.

Há alguns anos ocorreu-me a idéia de que poderia estar ocorrendo, ao menos na Civilização Ocidental, uma mudança composta de duas partes. A primeira parte é a seguinte: Todos nós sabemos que nas últimas décadas houve em nossas sociedades ocidentais uma constante e intensa rejeição do sentimento de culpa. Há os que atribuem tal fenômeno à derrocada da autoridade paterna, tendo como conseqüência a perda de poder da Lei. A meu ver, porém, a rejeição à culpa foi conseqüência da rejeição a um outro fenômeno estudado por Winnicott, o Falso Self. Pois não é difícil associar a culpa resultante da educação (portanto de fora para dentro) ao falso self, que antigamente constituía um modo de vida muito bem visto socialmente, mas nos últimos tempos foi sendo execrado cada vez mais.

A segunda parte dessa mudança diz respeito a uma das conseqüências do assim chamado Verdadeiro Self, pelo qual as coisas brotam de dentro para fora em vez de virem de fora para dentro do indivíduo. Por essa segunda parte da mudança, estaria a meu ver surgindo cada vez mais intensamente algo da ordem do concern, substituindo o sentimento de culpa que antes governava o comportamento em sociedade. Provas disso são a flexibilidade cada vez maior das famílias, o interesse cada vez maior pela ecologia, por trabalhos voluntários, pela pluralidade religiosa e social (a legitimidade cada vez maior das minorias sexuais, por exemplo), e pela arte popular, principalmente a música e a dança. Todos esses fenômenos têm no verdadeiro self o seu denominador comum, com seu aspecto central e fundamentalmente importante: a criatividade.

Outros fenômenos, de caráter inverso, também provam que esse movimento em direção ao Verdadeiro Self está acontecendo. São eles: o aumento do fundamentalismo religioso (na sociedade ocidental. O que acontece em sociedades não ocidentais foge ao âmbito desta discussão), o surgimento de movimentos radicais contra a liberdade da escolha sexual, etc.
Os movimentos positivos em direção ao verdadeiro self implicam inevitavelmente numa aproximação cada vez maior ao concern, a esse sentimento de interesse pelo outro que nada mais tem a ver com a culpa. Segundo a teoria psicanalítica de Winnicott, dois fatos resultam do processo acima descrito: Uma integração maior da personalidade, e um amadurecimento individual que significa saúde.

Um dos componentes desagradáveis desse processo é, infelizmente, o grande aumento da violência dentro da sociedade. Isto se deve, porém, a meu ver, não à idéia de que Hobbes tinha razão, mas à idéia de que antes de ser alcançado o concern há o estágio anterior, justamente o do apetite destituído de consideração, que Winnicott chamou de ruthlessness, característico de um estágio menos avançado do verdadeiro self. Podemos imaginar que a sociedade está se tornando mais violenta à medida que o tempo passa, mas a meu ver isto pode significar uma coisa muito diferente: as pessoas estão perdendo o medo e a culpa, e colocando em funcionamento impulsos antes apenas reprimidos. A garantia de funcionamento da democracia é esse: o princípio da discordância deve substituir o princípio da repressão. Não podemos gostar do que acontece hoje em dia em nossas ruas e em nossas instituições governamentais, mas a idéia da repressão pura e simples não funciona mais tão bem quanto antigamente. Numa democracia, os membros mais doentes ou menos amadurecidos da sociedade precisam ser contidos, não eliminados. Numa democracia, a justiça social deve ter como base sentimentos de solidariedade nascidos da saúde mental e emocional, e não sentimentos de culpa nascidos da repressão aos impulsos espontâneos e criativos.

Em suma, toda psicoterapia que não levar em conta esses fatores aqui descritos estará inevitavelmente a serviço da doença, e não da saúde, e seus praticantes, embora iludidos, estarão contribuindo para a injustiça e o sofrimento. A justiça social baseada na saúde emocional é uma decorrência automática, que precisa apenas ser estimulada, mas nunca ensinada. Todos os princípios acima delineados podem funcionar no interior da família e também da escola, as duas instituições sociais responsáveis pelo processo de socialização. Cabe às famílias e aos professores cuidar para que seus filhos e alunos alcancem o estágio do concern, nem que para isso seja necessário tolerar até certo ponto alguns comportamentos não muito agradáveis, baseados no que Winnicott chamou de ruthlessness, ou seja, a ausência da capacidade de consideração.


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