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AMOR:
ILUSÃO OU REALIDADE? André Martins Em Totem e Tabu Freud pensou a agressão como primeira em relação ao amor: "o impulso de matar acha-se realmente presente no inconsciente", escreve, afirmando que existe um "desejo original" de que o outro morra, e que é por isso que existe o interdito da morte: sem ele, espontaneamente nos mataríamos uns aos outros. Este interdito faz parte das exigências da cultura, ou da civilização, que visam a viabilidade da vida em conjunto. Porém, afirma Freud em O mal-estar na cultura, "não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis". Como vemos por esses extratos de 1913, primeira tópica, e de 1930, segunda tópica, fora uma constante no pensamento freudiano postular que o ódio precede e predomina sobre o amor. E não faltam exemplos disso, presentes de uma forma ou de outra em toda a obra freudiana, como em qualquer dicionário de psicanálise ou em qualquer livro de comentador. Embora na primeira tópica o sadismo seja visto por Freud como originário, isto acontece pelo mesmo motivo que na segunda é o masoquismo que é então considerado originário. Na primeira, agrido, desejo a morte do outro, como uma pulsão originária em mim, e por isso sinto-me culpado, buscando reparar-me de minha intenção maldosa, uma vez já introjetada em mim a moral do superego de meus pais. Além disso, se não aceitar a moral paterna, ou as regras sociais, sofrerei as reprimendas de um e de outro; e mais, caso não haja a lei, após matar muita gente e satisfazer-me com isso, sem que nada me aconteça, posso encontrar alguém mais forte do que eu, e então ser morto por ele. Abro mão então de meu prazer em matar, para não correr o risco de ser morto. Surge assim o contrato social, em prol da auto-conservação de cada indivíduo. Esta é, portanto, na primeira tópica, a gênese do amor: amo por me sentir culpado, e para não ser morto. A ambivalência de amor e ódio é, assim, vista por Freud como "uma disposição inata de cada um". Na segunda, há esta mesma precedência do ódio, porém como reflexo de uma precedência inorgânica da pulsão de morte. Agora, o masoquismo é primeiro, pois diz respeito à submissão do indivíduo a estas pulsões que vêm do inorgânico por via de nosso id, que gera no indivíduo uma tendência originária à auto-destruição – e não mais, portanto, a uma "hétero-destruição" como antes. Assim, entre outros "fenômenos", o masoquismo e o sentimento de culpa "constituem", aos olhos de Freud, aqui segundo suas palavras de Análise terminável e interminável, "indicações inequívocas da presença de um poder na vida mental, que chamamos de pulsão de agressividade ou de destruição, segundo seus objetivos, e que remontamos à pulsão de morte original da matéria viva". O amor, Eros, surge como única possibilidade de o homem vencer sua batalha contra a ação desta sua pulsão de morte interna. Ou seja, como o único modo de o homem sobreviver às pulsões do id e esposar os ideais da cultura. (Isto já daria margem a uma especulação "espinosiana": O impulso para a morte seria o puxão do "reino mineral" opondo-se ao fenômeno da vida, ou seria uma espécie de "força de gravidade" que puxa a vida de volta ao inanimado, de onde ela saiu, e o amor seria a força específica da vida, a força que a matéria viva faz para manter-se longe do inanimado. Não é impossível especular que esta idéia estaria na raiz do pensamento de Winnicott, que recusou a pulsão de morte como intrínseca ao ser vivo...)
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