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UNIVERSAL/PARTICULAR AO LOCAL/GLOBAL: Nahman
Armony Quando Freud criou o conceito de superego, vivíamos uma subjetividade marcada pela dicotomia, pelos limites precisos, pelas relações universal/particular, etc. Os conceitos psicanalíticos eram forçados a entrar em uma epistemologia de exclusão, de não-contradição. Acontece que os fenômenos que o dispositivo analítico ia criando/revelando cabiam cada vez menos em tal epistemologia, exigindo um esforço de acomodação, de esmagamento cada vez maior. O crescimento do volume fenomênico acabou por estourar as costuras da velha epistemologia derramando-se em um novo pensar, habitado pelo paradoxo, pela inclusão, pela complexidade e onde o universal/particular é substituído pelo local/global. Os estudos winnicottianos sobre a formação da moral já pertenceriam a essa nova subjetividade. Este trabalho pretende articular as transformações éticas e morais que vão de Freud a Winnicott com o caminho que a subjetividade de nossos tempos tem percorrido, indo do universal/particular ao local/global. A noção de global respeita a singularidade do local, permitindo que os vários particulares entrem em conexão segundo uma dinâmica de relacionamento intrínseca, imanente; o global é uma resultante dos locais e, ao mesmo tempo, constitui uma realidade "ao lado" (como se fosse um local) que interage com os locais. Já a palavra globalizaçào serve para, disfarçadamente, disseminar uma ideologia prévia, onde certos aspectos são repudiados e outros impostos. Tratar-se-ia, neste último caso, ainda de uma maneira de impingir um modelo arrogante e excludente, só que sob a roupagem contemporânea da globalização. Quem bem explica esta questão é André Martins, de quem reproduzirei dois trechos de seu trabalho "Relações local-global nas redes transdisciplinares: globalização e singularidade": "Em nossa contemporaneidade recente, o arrefecimento social da pretensão à Verdade (digo social pois na Academia parece-me ainda reinar a referência sistêmica), a falência dos totalitarismos, o descrédito relativo dos universais, instauraram, no lugar das relações universal-particular/parte-todo, relações do tipo local-global, onde o global, não se impondo mais como a verdade do particular, dissemina-se em rede, influenciando localmente os diversos particulares. As tentativas de globalização configuram-se neste novo quadro como tentativas do imperialismo em uma versão contemporânea. Não mais autoritário, propriamente dito, mas inserido e legitimado na democracia; não mais em nome de alguma bandeira, no entanto apresentando-se como único tempo e espaço reais, viáveis. Não mais o universal, pois que a globalização não pretende ser a verdade dos particulares locais - mas apenas a "necessidade" dos locais -, e não exatamente de todos (embora queira ser legitimada pela maioria, visando o consenso e a disseminação de sua ideologia pela sedução) mas de modo a que simplesmente dêem lucro. Não mais a parte e o todo, pois que o global imposto pela globalização se dá por rede, visando atingir ao maior número possível de localidades indiferenciadamente. A intenção do universal era a de impor-se sobre os particulares, ainda que o fosse contra eles (já que era o universal que sabia a verdade do particular, e não o próprio particular); a intenção da globalização é de impor-se ao particular, apresentando-se como inevitável, procurando convencê-lo disto, seduzi-lo. Ao invés de extirpar ou exterminar a diferença, a globalização pretende excluí-la, pô-la fora do mundo (mas não ao ponto de que ela deixe de permitir e nutrir e propiciar fundos para a própria globalização, posto que sem miséria não há riqueza, sem exclusão não há inclusão, etc.)". E mais adiante: "não há uma imposição natural do global sobre o local; ao contrário: certo, todo global influencia os locais, mas deles é constituído. Sendo a singularidade uma realidade constitutiva dos indivíduos e das sociedades, o global será sempre o reflexo destas diversas singularidades locais".
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