DE BUBER A WINNICOTT:
UMA VISÃO BENIGNA DA SOCIEDADE
OU
Para Compreender a Nova Era

Davi Litman Bogomoletz
Junho de 1997

A intenção deste trabalho é a de propor que, numa sequência histórica surpreendente, as assim chamadas Culturas da Vergonha e da Culpa ganharam uma sucessora: a Cultura do Concern. Os dois primeiros termos me foram apresentados por Ruth Benedict em seu livro "O Crisântemo e a Espada" (Editora Perspectiva, São Paulo, 1972), no qual ela descreve a sociedade oriental - japonesa, por oposição à ocidental - americana, onde ela identifica respectivamente a vergonha e a culpa como os eixos em torno dos quais giram os processos civilizatórios desses dois grupos.

E.R. Dodds, em "Os Gregos e o Irracional" (editora Gradiva, Lisboa, 1988), aceita as descrições de "Cultura da Vergonha" e "Cultura da Culpa" propostas por Benedict, porque "a sociedade descrita por Homero cai claramente na primeira categoria" (Pág. 26). Diz ele:

"O maior bem do herói homérico não é o prazer de uma consciência tranqüila - mas o prazer da timê, a consideração pública: ‘Por que hei de lutar’, pergunta Aquiles, ‘se o bom guerreiro não recebe mais timê que o mau?’"

(Ele mostra, um pouco antes, ser a consciência (de si) algo de que o homem homérico nem sequer era dotado - "O herói homérico não tem qualquer concepção unificada daquilo a que chamamos "alma" ou "personalidade" Op. cit., pág. 24).

Concern

Não sendo necessário explicar o que significam os termos "culpa" e "vergonha", lembro que o termo concern foi utilizado por Winnicott para descrever uma atitude que leva o indivíduo a interessar-se espontaneamente pelo bem estar do outro. A atitude do concern consiste numa consideração prestada ao outro, que assim é percebido como "bom", "amigo", ou no mínimo como "não inimigo", ao menos potencialmente.

Buber, em sua sabedoria que tantas vezes parece premonitória, já havia falado de uma atitude desse tipo, sem vinculá-la à psicanálise e sem dar-lhe um nome específico. Em "Do Diálogo e do Dialógico", (editora Perspectiva, São Paulo, 1982), consta o ensaio "Diálogo", de 1930 (!), no qual lemos (às págs. 41-43):

"O contemplador (por oposição ao observador) não está absolutamente contemplando. Ele se coloca numa posição que lhe permite ver o objeto livremente, e espera despreocupado aquilo que a ele se apresentará. Só no início pode ser governado pela intenção, tudo o que se segue é involuntário. Ele não anota indiscriminadamente, fica à vontade e não está temeroso de esquecer alguma coisa ("Esquecer é bom", diz ele). Não impõe tarefas à memória, confia no trabalho orgânico desta, que conserva o que merece ser conservado. Não recolhe, como faz o observador, a grama como se ela fosse forragem, ele a revolve e deixa que o sol a ilumine. Não dá atenção a traços. ("Traços", diz ele, "enganam"). Valoriza no objeto o que não é "caráter" nem "expressão". ("O interessante", diz ele, "não é importante.") Todos os grandes artistas eram contempladores. (...)

"...numa hora receptiva de minha vida pessoal, encontra-me um homem em quem há alguma coisa - que eu nem consigo captar de uma forma objetiva - que "diz algo" a mim. Isto não significa de forma alguma que esta coisa me diga como esse homem é, o que se passa nele ou coisa semelhante. Mas significa que ele diz algo a mim, transmite algo a mim, fala algo que se introduz dentro da minha própria vida. (...)

"Chamemos esta forma de perceber de tomada de conhecimento íntimo."


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