Holocausto – A Mega-Fabricação do Desamparo

Davy Bogomoletz
Abril – 1999
(Publicado na Revista do Círculo Psicanalítico
do Rio de Janeiro, Dezembro de 1998)

Resumo

O fenômeno do desamparo é discutido numa dimensão histórica – o Holocausto – e em suas características biológicas, psicológicas e psicanalíticas, estas últimas estudadas a partir das contribuições de Winnicott.

Algo de História e Filosofia

Este é um tema que não precisa de introdução. A todos são familiares as horrendas imagens do cinema e da TV, imagens dilacerantes de seres humanos absolutamente desamparados, durante o assim chamado "Holocausto" – o processo de dizimação perpetrado pelo III Reich contra a população judaica da Europa. Apesar de a "máquina de produzir desamparo" não ter sido utilizada apenas contra a população judaica, foi contra ela que mais forte se abateu a política de extermínio total nazista.

Claro, tais imagens não existem somente a respeito do Holocausto – em qualquer grande catástrofe ou grande comoção social os mesmos rostos podem ser vistos – rostos torturados, esmagados, rostos que expressam a mais profunda condição de vulnerabilidade, desproteção e fragilidade. Hiroxima, Biafra, Vietnã, Ruanda, (e agora, o Kosovo), terremotos, incêndios, acidentes de todo tipo, sempre produzem a mesma imagem: a imagem do desamparo radical do indivíduo humano.

É sempre o mesmo fenômeno: Quando um poder deseja esmagar uma população, sua tática é a mesma que a natureza utiliza para realizar seus grandes espetáculos: o horror provocado pelas águas das grandes enchentes, o terror provocado pelas labaredas do grande incêndio, a insegurança absoluta provocada pelos terremotos. Em todos esses paroxismos naturais, as forças desencadeadas são tão grandes, tão esmagadoras, que o indivíduo vê-se diante de um inimigo totalmente inexorável e imbatível, contra o qual não resta a mais remota esperança. É nessas situações que emerge a figura do herói, o homem ou mulher de estatura moral superior. E a figura do herói descreve magnificamente, por contraste, essa outra figura desamparada e impotente do homem comum.

As nações desejosas de submeter outras sempre agiram do mesmo modo: enviando contra o oponente forças militares, em homens e máquinas, dotadas da dimensão que seus generais acreditavam suficientes para tirar do oponente qualquer desejo de defender-se, por considerar tal empresa impossível, esperavam obter a rendição do inimigo às custas do mínimo desgaste possível.

Entre os animais da mesma espécie que disputam o poder, como se sabe, por vezes é suficiente a mera exibição da força para dissuadir o adversário e fazê-lo recuar. Quando se trata não de uma disputa, mas de uma situação de subjugação real da presa pelo predador, a exibição do poder maior é muitas vezes usada para paralizar o adversário e diminuir seu poder de resistência.


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