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FREUD, WINNICOTT E O HUMOR
Davi
Litman Bogomoletz Abordar condignamente (seriamente?...) a questão do humor, no interior do contexto psicanalítico freudiano, é tarefa que se revela gigantesca, quando se constata que a crítica à psicanálise assim chamada aplicada envolve não só a interpretação da interpretação do objeto ao qual ela se aplica, como também a própria teoria a partir da qual parte o seu esforço interpretativo. Tendo este cenário como fundo, o trabalho de Freud sobre o humor é exemplar. Primeiro, porque se trata de uma aplicação da teoria freudiana a um objeto - que não sintoma neurótico - das mais límpidas e claras. Segundo, porque não depende, para sua realização, de outros conhecimentos (História, Antropologia, Sociologia, etc.) que poderiam, por sua ausência ou inadequação, toldar o esforço interpretativo. É conhecida a celêuma levantada sobre "Moisés e o Monoteísmo", não tanto porque Freud saiu do consultório e tratou de "interpretar" uma História, mas justamente porque lhe foi lançada a acusação de não conhecer suficientemente o campo que ele se dispunha a re-mapear. Sabemos, também, dos reptos de que foi alvo seu estudo sobre Leonardo da Vinci. Tal risco não existe, quando o tema de que trata Freud é a piada - ou chiste. Impossível desconhecer o campo tratado, neste caso. Por isso, para discutir a interpretação freudiana do humor, não há mais senão rever os pressupostos teóricos por ele aplicados à questão. Mas isto implica em revisitar a metapsicologia em dois momentos - em 1905, quando surge o trabalho sobre os chistes, e em 1927, quando Freud escreve "O Humor", um pequeno artigo complementar ao tema. Tal tarefa pareceria simples a um metapsicólogo experiente. Mas este não é o meu caso, de modo que a mim coube cortar o dobrado de rever muito do universo freudiano, do qual estou há tanto afastado, para então arriscar um ponto de vista pessoal. Mas não se pode desprezar desafios deste tipo, de modo que eis me aqui, tentando. Já para falar do humor judaico propriamente dito, sinto-me mais em casa. Não que haja tantos estudos a respeito a ponto de facilitar-me a tarefa. Mas ao menos é um campo no qual não me perco com tanta facilidade. Primeiro, pois, à metapsicologia. Freud, em 1905, já estava sacudindo o mundo com sua psicanálise fazia dez anos. Não era mais um recém-chegado. Mas ainda não era uma celebridade. Sua grande obra anterior, "A Interpretação dos Sonhos", já tinha cinco anos de idade, mas pouca penetração nos círculos intelectuais. Peter Gay conta que, àquela altura, apenas 351 exemplares da obra haviam sido vendidos! [1] "Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente", pois, surge num mundo que ainda precisa ser convencido de que a Psicanálise "funciona". E foi exatamente assim que o li: Como um ponto intermediário entre "A Interpretação dos Sonhos", a magna "Suma" com que Freud imaginou abalar as fundações do universo, e "Psicopatologia da Vida Cotidiana", a amável, leve e bem humorada excursão organizada por Freud aos bosques sombrios do inconsciente, obra destinada obviamente não aos eruditos, mas ao público em geral. "Os Chistes" não é leve, nem amável, e muito menos bem humorado. Excluindo os ditos espirituosos por ele citados, e portanto não de sua autoria, o texto propriamente freudiano nada tem de engraçado. Se me é permitida a franqueza, eu sinceramente o achei maçante.
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