ANTES MAL ACOMPANHADO DO QUE SÓ
OU
PODE UM INVEJOSO INGRESSAR NO PARAÍSO?
(Uma tentativa de repensar, com Winnicott, a questão da inveja)

Davi L. Bogomoletz
Rio, Outubro, 1991
Revisto em Agosto, 1996

Muitas destas idéias só se tornaram possíveis para mim graças à convivência com Estrella Bohadana, professora de filosofia e, no meu caso, de vida.

Agradeço também à Dra. Melany Schwartz Copit, por ter me mostrado por que e como levar este trabalho bem adiante do que eu havia imaginado.


De invejoso, médico e louco, todos nós temos um pouco. Deveria ser esta a redação da frase célebre, pois muitos há que nada têm de poeta. Já a inveja é mais comum que a pobreza, mais onipresente que a doença, mais endêmica que a corrupção.

E a simples razão para que assim seja é que, inevitavelmente, todos nós nascemos algum dia. Desse fato guardamos não necessariamente o célebre trauma, pois isso ainda é duvidoso, mas a memória crepuscular de um paraíso, um paraíso de plenitude onde passamos pelo menos os nove meses da gestação e mais uns dois ou três cá fora. Paraíso, digo, e é isso mesmo. Pois um lugar onde nada falta, onde (quase) nada incomoda, onde os eventuais perigos são afastados de imediato, como num passe de mágica, onde uma instância suprema, protetora, administra o universo para que ele se comporte e nos trate de agradar só pode merecer esse nome: Paraíso.

Depois de grandes, geralmente não guardamos desse paraíso mais que uma pálida lembrança. Mas essa pálida, quase invisível imagem é suficiente para que busquemos, pela vida afora, reproduzir de um modo ou de outro essas condições maravilhosamente adequadas em que uma vez vivemos, e para onde todos nós pretendemos voltar. Os santos - quando estiverem maduros para serem colhidos pela divindade. Os facínoras - aqui mesmo, deste lado da morte, e de preferência enquanto jovens, para poderem usufruir ao máximo. Certos religiosos mal informados - após abandonarem este mundo imundo que os atormenta como se fora um inferno. Os ateus - no seio de uma sociedade onde o homem respeite o seu semelhante e, de preferência, também o seu planeta, para que aqui mesmo fabriquemos um paraíso feito à mão, que adoce a nossa existência entre um nada e outro. Seja como for, todos pedem bis a esse número tão especial, a esse espetáculo que tanto agradou a todos os que o assistiram, certa vez, há tanto tempo...

Pois que outro almejo tem o bicho homem que não esse? Reconquistar o bem-estar total, o máximo prazer, o gozo ininterrupto, a feliz eternidade. Esse é o alvo, o fim, a meta, do bororo ao javanês, do zulu ao polonês, do apache ao sorbonês.

Há os que afirmam que a meta do homem é retomar a posse da mãe. Afirmam que o paraíso fica em seu colo, em seu seio, em seus braços. Mas não: o paraíso é mais para lá, é anterior à mãe conhecida, ao aconchego de carne e osso. O paraíso verdadeiro é antes: vai do útero ao momento em que surge a mãe, mãe de fato, mãe ambiente, como a chama Winnicott. Ainda não é a mãe total, mas já é uma figura discernível, indispensável, vital. A mãe-paraíso é anterior, é aquela que sequer percebemos, que está lá mas não vemos, não sabemos ainda que dela dispomos como um senhor de seu servo, que ela é o deus que nos serve e adora. A isto Winnicott chama de "ainda não estar vivo".


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