WINNICOTT E A MÚSICA
OU
WINNICOTT PARA MUSICOTERAPEUTAS

Davy Bogomoletz
Dezembro de 1992

Um estudo do valor da música para D. W. Winnicott deveria merecer uma dedicação bem maior do que a que me é possível no momento. Farei, pois, uma despretensiosa abordagem introdutória, uma espécie de ‘cartão de visitas’. Um dia, espero poder realizar um estudo mais extenso do tema, pois tanto a fonte, quanto os destinatários e o tema, o merecem.

Gostaria de começar por algo que sempre ‘ouvi dizer’, mas de que não mais localizo a fonte. É que Freud não gostava muito de música. Não tinha, o velho mestre, muita paciência para com essa arte. Sabe-se que viu a ópera "Carmen", em Paris, que muito o impressionou. Gostava muito também do "Don Giovanni", de Mozart, mas "A Flauta Mágica", por exemplo, não lhe agradou tanto. (Cf. Jones, "Vida e Obra de S. Freud", Imago.) Ele era amigo do compositor Schoenberg, e tratou de Gustav Mahler, mas não encontrei menções à obra dos dois. Fica-se, por fim, com a impressão de que para Freud a música era um passatempo ‘menor’.

Foi muito bom encontrar, quando eu já não estava mais procurando, uma referência textual a esta questão. Em "Lendo Freud", Peter Gay publica um interessantíssimo ensaio a respeito da obsessiva busca de Freud pela verdadeiro autor das obras atribuídas a Shakespeare. A certa altura, analisando a forma pela qual Freud se interessava pelas obras de arte, Gay diz: "Num artigo anônimo [o "Moisés de Michelangelo", assim publicado primeiramente em Imago em 1914, tendo Freud assumido a autoria somente em 1924] Freud se descrevia mais como um leigo que como um conhecedor de arte, alguém que se sentia ‘mais atraído pelo tema de uma obra de arte que pelas suas propriedades técnicas ou formais’. Daí a música ser algo quase inacessível para ele, pois, como confessava, só conseguia obter prazer de uma obra de arte se, depois de contemplá-la por algum tempo, conseguisse ‘captá-la à minha maneira, isto é, compreendendo os meios pelos quais ela provoca uma determinada impressão.’ Ele atribuía a sua incapacidade de apreciar aquilo que não conseguia compreender a ‘uma maneira de pensar racionalista, ou talvez analítica.’ Não é muito fácil deduzir, pois, que Freud, o homem, era - como se diz hoje em dia - regido pelo hemisfério esquerdo do cérebro. Ele era fascinado pelo sentido, e sabemos que na música há sentido de modo apenas remotamente indireto. Seu reino era o reino da palavra, e não há dúvida de que, nesse reino, ele foi um soberano de imenso poder e vastíssima sabedoria. Mas a música não fazia parte de seus interesses pessoais.

Já Winnicott tinha, na música, uma companhia quase inseparável. Ele adorava Bach. Suas referências aos últimos quartetos de Beethoven só podem comparar-se à suprema admiração que Freud tinha pelo "Fausto" de Goethe. Tivesse eu um pouco mais de tempo e menos preocupações, tentaria fazer uma reflexão sobre a personalidade dos dois mestres, a partir dessa sua relação com a música. É uma idéia tentadora, mas para mim impossível agora. Winnicott tocava piano, e sempre alegrava as festas e reuniões, e na última década de sua vida aderiu inteiramente aos Beatles, de quem tornou-se um grande fã - tinha todos os seus discos. (Quando eles surgiram ele tinha já mais de sessenta anos. Todo o mundo foi fã dos Beatles aos 14 anos. Mas beatlemaníacos sexagenários não eram tão frequentes assim...) (Histórias contadas por Clare Winnicott.)


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