Contribuição para a Jornada Interna do CPRJ

Título geral: ‘O Sofrimento Contemporâneo, Nova Psicanálise?’

Um é Pouco,
Dois é Bom,
Três é Demais...
(‘Eu’ e ‘Não-eu’ no Ano 2000)

Davy Bogomoletz
Maio, 2000

Há muito tempo ouço falar, no campo da psicanálise, do mais que famoso ‘terceiro’. O ‘terceiro’ é aquele outro elemento humano que, de fora, invade o espaço da díade mãe-filho, quebrando ou ao menos esgarçando o vínculo primário, e provocando desse modo a reação adversa da criança (geralmente é assim, embora possa existir também a oposição da figura materna, não desejosa de perder o seu espaço de onipotência junto ao rebento simultaneamente tirano e tiranizado). Teoricamente, o ‘terceiro’ é na verdade uma função, que pode ser chamada de ‘função paterna’, pois tem a missão de realizar essa separação.

A idéia já está em Freud, com a fórmula do Complexo de Édipo, mas creio que foi Lacan quem propôs a palavra ‘terceiro’. A figura do ‘terceiro excluído’, conforme o apelidam devido à reação por ele provocada, é personagem constante e quase inevitável nos escritos e relatos psicanalíticos que seguem de um modo ou de outro uma orientação à qual se aplica o adjetivo ‘continental’ (isto é, francesa) – por oposição à orientação conhecida como ‘britânica’ (de fato, não me lembro de ter ouvido essa expressão – o ‘terceiro’ – num contexto kleiniano ou pós-kleiniano). (Certamente o ‘terceiro excluído’ é aquele que, enquanto figura psicanalítica (não enquanto paciente), aparece no consultório do psicanalista, pois não tivesse ele sido excluído, o tratamento não seria necessário...)

Poucas expressões psicanalíticas são tão unívocas quanto esta. O ‘terceiro’ é o pai, é o portador da lei, é o que desfaz a relação simbiótica, é o que promove a castração, o fim da onipotência, o crescimento, a entrada na cultura, no simbólico, etc., etc.

Repentinamente, enquanto pensava em algo inteiramente diferente, fui abalroado pela idéia de que de ‘terceiro’ esse ‘terceiro’ nada tem, e daí decorreram estas outras idéias. Pois a idéia que me surgiu repentinamente é a de que se trata de um ‘segundo’, e não de um ‘terceiro’, e gostaria de explicar o meu insight, embora suspeite que a explicação já não seja mais necessária


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