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SUPER-EGO E SUAS VICISSITUDES Davy
Bogomoletz Para começo de conversa, este é um artigo que não precisa ser lido. Porque aos que concordam com o que aqui digo, não preciso mais convencer. E porque aos que discordam do que aqui exponho, a esses dificilmente convencerei. Fico, então, condenado ou a chover no molhado, ou a pregar no deserto. É que se trata, aqui, de mais um dos "rabos" das famosas "grandes controvérsias" ocorridas na British Psycho-Analytical Society, na década de 40. Naquela época, kleinianos e anafreudianos lutavam entre si com tal fragor, que nem sempre ouviam as bombas alemãs caindo sobre Londres. Um novo Homero um dia cantará essa nova Ilíada ("Londríada"), mas não agora: A guerra pela posse da verdade psicanalítica está longe de chegar ao fim. Falo o que adiante vem por experiência própria: Fiz análise de grupo com um analista egresso do movimento kleiniano, que hoje é notável por suas posturas existencialistas e pós-ipeanas. Depois fui para a individual com uma "monstra", uma feroz kleiniana legítima que por pouco não me levou ao hospício: Quando disse a ela que eu havia me candidatado à formação no Círculo, primeiro ela questionou o fato de que eu era psicólogo, e não lhe pareceu suficiente saber que o Círculo aceitava psicólogos. Depois, vencido este primeiro argumento, ela sugeriu simplesmente que eu talvez devesse procurar o Pinel. Assim. Explicitamente. Fugi. No Círculo, fiz análise com um analista que começou como kleiniano, mas logo passou a trabalhar na linha de Winnicott. Até hoje não sei se fui que o obriguei a mudar de estratégia, ou se ele já estava mudando espontaneamente, e eu apenas ajudei com um empurrãozinho. Até hoje, estou convencido de que se não fosse por essa análise winnicottiana, eu teria morrido (por doença ou por morte voluntária) em algum momento desse percurso. Foram mais de 30 anos "struggling for my sanity", como diz Don MacLean Se os freudianos interpretam (isto é, tratam de interditar) a resistência e as intenções edípicas, se os kleinianos interpretam (idem) a voracidade, a destrutividade e a inveja, e os lacanianos, a demanda (isto é, a mentira, o engodo, a contrafação), temos como resultado global que o psicanalista que eu chamo de "ortodoxo" (assim mesmo, entre aspas, porque sua pretensão à "opinião correta", significado original dessa expressão, não passa, na verdade, de pretensão) visa acima de tudo atingir, com suas intervenções, o id do paciente. Talvez os lacanianos não visem tanto o id. Afinal, a vigarice é coisa do ego. No entanto, a postura desse tipo de "psicanalista" "lacaniano" – sim, ambos os termos entre aspas – é de quem desanca um usurpador. Ainda que o paciente seja do tipo "toupeira", pois nesse caso ele estará usurpando uma paz à qual não tem direito. E a ambição, convenhamos, é sempre da ordem do id. Ergo… Não deve ser à toa que Lacan fala em "examinar o fundo falso da mala do paciente", e em outro lugar fala do psicanalista como um "violador de túmulos"… Os "psicanalistas" "lacanianos" são aqueles que levam Lacan ao pé da letra, e mesmo sem ter estudado Lacan nem mesmo um pouco, deu para entender que Lacan pode ser tudo, menos um literal. E pensar que é o próprio Lacan quem diz que ao psicanalista – agora sem aspas – são permitidos todos os pecados, menos o da ingenuidade…
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