"OLEANA" – UM CASO CLÍNICO
SOBRE ‘OLEANNA’, DE DAVID MAMET

Davi L. Bogomoletz
Maio de 1995
Revisto em Agosto de 1998

Um filme, muitas vezes, vai além do que pretende. Óbvio, pois é esta a diferença entre o grande artista e o artesão esforçado. Digamos que, psicanaliticamente falando, o grande artista alcança maior intimidade com seu inconsciente que o cidadão comum, ou mesmo o artista apenas bom. Lá, desse oceano sem fundo que subjaz à consciência do homem, o grande artista tira com sua rede as criaturas primevas que habitam a alma humana, e por isso o que ele produz afeta a tantos – cuja rede pende em geral de uma corda bem mais curta, mas que nem por isso ignoram totalmente o que se passa nessas profundezas. A matéria prima da arte é a mesma dos sonhos – e todos sonham, mesmo que disso não se lembrem.

Um filme à primeira vista banal – e em muitos sentidos até mesmo chato – por vezes apenas espera que os que o assistem coloquem sobre os olhos aqueles óculos de ver em profundidade. É o caso deste "Oleanna", de David Mamet.

Não sei se o autor sabia o que estava fazendo. Muita coisa levar a crer que não, mas a argúcia dos artistas já me driblou mais de uma vez. Ocorre que o filme é, entre outras coisas, uma aula de psicanálise, bem como – mais obviamente – de comunicação humana. Ver o filme com os óculos da psicanálise o torna infinitamente mais interessante – ao menos para mim. Como ignoro a cultura psicanalítica do autor, digo que não sei se o autor sabia o que estava fazendo. Se sabia, é um sábio. Se não sabia, é um gênio.

De início, o que parece apenas uma disputa acerba entre um professor – excelente, por sinal – e sua aluninha ranheta revela-se uma grande rapsódia épica sobre a questão da verdade. Quem tem razão: O professor lúcido e articulado, que muitas vezes diz coisas cujo sentido não é óbvio, contando sempre com a capacidade de sua aluna de get the message, ou seja, "pegar o espírito da coisa", deixando de lado o seu sentido literal? Ou a aluna que se sente humilhada pela demonstração esmagadora de brilho intelectual, quando na verdade ela queria justamente respostas simples e diretas, pois o sentido sofisticado das idéias do professor ela desde o início não havia compreendido, no livro que ele havia escrito?

Creio que, de um modo geral, o espectador medianamente intelectualizado, aquele que foi ver justamente esse filme, tendeu a identificar-se inteiramente com o personagem do professor. Dada a obtusidade inicial e a antipatia final do personagem da aluna, poucos teriam sido os que se identificaram com ela, creio eu. No entanto, colocando-se sobre o nariz os óculos da psicanálise, surge no filme um outro enredo, no qual a figura heróica é justamente a da mocinha desajeitada, e o belo professor passa para o lugar do vilão.


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