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PARADIGMAS
E PARADOXOS Davy
Bogomoletz Nos tempos atuais, em que os paradigmas – antes fixos como o firmamento – puseram-se a dançar à nossa volta como fogos fátuos em noite de brisa, em que velhas certezas e novas revoluções caem rolando como avalanches do alto dos montes do saber, não custa nada – já não é mais nada temerário, antes pelo contrário – meter eu mesmo o bedelho em tal circunspecta discussão e avançar uma ousadia própria. Não que me ocorra inovar. Não sou suficientemente ilustrado na arte da epistemologia para dizer que já sei o que já se sabe, e propor algo novo. Bem ao contrário: talvez por não saber o que já se sabe é que escrevo estas palavras, quem sabe supérfluas, mas para mim indispensáveis à guisa de moldura – que não me deixe vadiar o pensamento. O Novo Espírito Científico, de mestre Gaston Bachelard, é rico em indicações sobre para onde sopram os ventos da mudança. Entre outras coisas, sugere ele que o que entendemos por "rigor científico" ou "metodológico" pode não passar, na verdade, de um leito de Procusto: o que nele não cabe, amputa-se, e pronto. Tal é, por exemplo, a questão do que cabe ou não cabe discutir quando se fala do homem. Que homem é esse do qual falamos? Será o homem anônimo, da massa, da classe, da região, da idéia (religião, ideologia política, cultura específica, etc.)? Ou será o homem privado, individual, definido, com nome, sobrenome e endereço? E, em se tratando de um, pode-se a ele aplicar critérios, categorias, reflexões, que por "rigor metodológico" pertencem ao outro? Diz o mestre, em frase feliz, que "Reconhecer não é conhecer. Reconhece-se facilmente o que não se conhece." (Bachelard, 1968, p. 100), e tal afirmação cai como luva em meu argumento: reconhecemos facilmente o homem anônimo, e reconhecemos facilmente o homem com nome, tanto que atribuímos a cada qual uma ciência própria: a um, a sociologia, ao outro, a psicologia clínica (ou, no meu caso, a psicanálise). Mas supor, por esta razão, que com isto "conhecemos" o homem em questão, e com base nesse "reconhecimento" protegermos o nosso homem da intromissão da ciência alheia implica, necessariamente, em utilizar o leito de Procusto científico pelo avesso (surpreendentemente, ele funciona também de marcha à ré!), impedindo que o que quer que de fora venha, aproxime-se da figura ali deitada e a toque. "Sociólogos, fora", dirão os psicanalistas, e "Psicanalistas, fora", dirão os sociólogos. Eis que surge, no entanto, um indisciplinado como eu e arrisca-se a palpitar psicanaliticamente sobre o homem-massa, fora do âmbito do indivíduo de carne e osso estirado em meu divã. Pior: arrisco-me a palpitar sobre toda uma História, arrancando as tampas ao mesmo tempo do intrapsíquico e do inter-pessoal, para discutir a interferência de uma fantasia inconsciente nos mecanismos de toda uma sociedade ao longo de quase vinte séculos! Lamento, porém, mas como diz Margenau, citado por Bachelard: "O reconhecimento do fato de que o apelo realístico de certos dados naturais depende em grande parte de nossos modos de compreensão, retira ao realismo ingênuo uma grande parte de suas forças de persuasão." (Idem, p. 87) E Bachelard arremata: "Os fenômenos da microfísica ("por exemplo", acrescento eu) estão faltos de realistic appeal" (Ibid., p. 87). À certeza de Leibniz – Quod non agit, non existit, já há tempos desbancada e colocada no museu, inclusive pela própria psicanálise, sucede-se esta pérola de Louis de Broglie:
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